Cael Sterling
O relógio da sala marca 23h50. Quase meia-noite, e eu estou oficialmente morto por dentro.
O dia foi um inferno completo. Reuniões arrastadas, crises na empresa que pareciam se multiplicar a cada e-mail aberto e telefonemas intermináveis. E, no meio do caos, a obrigação constante de ser pai. Presente. Equilibrado.
Estou falhando miseravelmente em todas as frentes.
Eu vou matar a Mia.
Aquela irresponsável entupiu meu filho de açúcar, fez absolutamente todas as vontades dele e evaporou. Entrou por uma porta e saiu pela outra, jogando um “tenho um encontro, tchau” por cima do ombro, como se tivesse me deixado um vaso de planta e não uma bomba-relógio de três anos e meio.
Porque "elétrico" não descreve o estado do Theo. Ele está possuído por uma energia movida a glicose e música infantil. Já correu pela casa inteira, quis brincar de pique-pega, esconde-esconde, astronauta e coisas que eu nem sei o nome.
Quanto mais ele corre, mais bateria parece brotar daquele corpo minúsculo.
Eu estou no modo sobrevivência.
Tomo mais um gole de bourbon, sentindo o álcool queimar a garganta enquanto observo meu filho pular feito um coelho ao som de um vídeo que toca no meu celular. Ironia suprema: eu, que sou radicalmente contra telas para crianças, usando o aparelho como babá digital improvisada.
Desespero pede medidas desesperadas.
Com o Theo distraído por dois minutos, tento organizar a cabeça. Principalmente sobre como lidar com a Hailey. Aquela diaba passou a semana inteira me pressionando para anunciar o noivado para a mídia. Um noivado que não vai existir. Nunca existiu, exceto na cabeça dela e no inferno da assessoria de imprensa.
— Papai… — a voz pequena corta meus pensamentos.Levanto o olhar. Ele está bem na minha frente, com os olhos brilhando de expectativa.— Vem dançar, vem, vem! — Ele agarra minha mão, tentando me arrancar da poltrona.
— O papai está ocupado, Theo — respondo, tentando manter o tom neutro enquanto me endireito no assento.
A verdade é que eu não tenho mais energia para rolar no chão, fazer cambalhota ou ser qualquer coisa além de um adulto exausto.
— Vamos, papai, vamos! — ele insiste, puxando com toda a força que tem.
— Já falei que o papai está ocupado, Theo — minha voz sai mais firme do que eu pretendia.
O efeito é imediato. Os olhos grandes começam a marejar e o lábio inferior treme.
— A tia Mia brinca comigo… — ele murmura. Uma comparação inocente, mas que me atinge feito um soco.
— Sua tia Mia não está aqui — rebato, seco demais. — Então se comporte ou vai ficar de castigo.
O desafio vem rápido. Theo cruza os bracinhos, fecha a cara e me mostra a língua. Um gesto infantil, mas que naquele momento esgota o meu último pingo de paciência.
— THEODORE STERLING! — minha voz explode na sala. Muito mais alta do que deveria. — Isso é jeito de tratar o seu pai?
O efeito é devastador. É como se eu tivesse apertado um botão.
O semblante teimoso se desfaz em puro susto. Ele dá um passo para trás, me encarando como se eu tivesse virado um monstro assustador. Os lábios se contraem em soluços silenciosos e, em seguida, vem o choro. Um choro doído, assustado, que ecoa pelas paredes e aperta o meu peito de um jeito violento. Não é birra; é rejeição.
Olho para ele soluçando e sinto o peso do veredito: eu falhei de novo.
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