Liana fechou a porta do apartamento atrás delas e encostou as costas na madeira, soltando o ar devagar, como se só agora tivesse percebido o quanto estava tensa.
— Eu não vou — declarou, cruzando os braços. — Não tenho roupa, não tenho clima, não tenho psicológico pra isso, amiga, não rola.
Babi arqueou uma sobrancelha, largando a bolsa no sofá pequeno.
— Lili, você só trabalha e trabalha, vive na padaria e trancada aqui nesse cubículo, qual problema de curtir a vida um pouco?
— Eu não tenho roupa — insistiu Liana, apontando para o próprio corpo. — Olha pra mim.
Babi a analisou de cima a baixo.
— Olho. Vejo uma mulher linda precisando urgentemente de um vestido curto e uma bebida forte.
Liana bufou.
— Eu tô falando sério.
— Eu também — Babi respondeu, já pegando a chave do carro. — Pega suas coisas, a gente vai no meu apê.
— O quê?
— Meu apartamento é aqui do lado, criatura. E eu tenho roupa pra emprestar, muita roupa.
Liana abriu a boca para protestar, mas já era tarde, a morena a agarrou pelo braço e a puxou para fora, arrastando-a para o carro afirmando que naquela noite Liana precisava voltar a viver e lembrar que não era uma idosa.
***
O apartamento de Babi era pequeno, mas aconchegante. Havia almofadas coloridas jogadas no sofá, luzes quentes, pôsteres de bandas antigas na parede e um cheiro suave de perfume misturado com café.
— Tá vendo? — Babi disse, jogando a bolsa na cadeira. — Lugar perfeito pra uma transformação.
— Eu não preciso de transformação nenhuma — Liana murmurou.
— Precisa sim. — Babi abriu o guarda-roupa. — E eu vou provar.
Ela puxou um vestido prateado brilhante, curto, de alças finas.
Liana arregalou os olhos.
— Babi, você só tinha dinheiro pra comprar um pedacinho de pano e o resto ficou na loja, foi?
— Para de besteira olha essas pernas que você tem! — Babi corrigiu. — E vai ficar perfeito em você.
— Babi…
— Sem discussão.
Minutos depois, Liana se olhava no espelho, sentindo-se fora do próprio corpo.
O vestido moldava suas curvas de um jeito que ela não estava acostumada a ver. As pernas ficavam à mostra, a cintura marcada, o decote provocante.
— Eu pareço… — ela começou.
— Um escândalo — Babi completou, sorrindo satisfeita.
Liana desviou o olhar para a perna machucada.
— E isso?
— Confia em mim.
Babi fez um curativo discreto, firme, e depois entregou uma bota de salto alto preta, de cano longo o suficiente para esconder o curativo.
— Pronto. Ninguém vai ver.
Liana calçou as botas e respirou fundo.
— Eu sou muito tímida… Isso não vai dar certo, Babi.
— Claro que vai — respondeu, já vestindo um vestido vermelho justo, curto, que parecia ter sido feito sob medida, então deu um tapa na bunda de Liana, rindo. — Hoje você vai aprender a se soltar.
***
A boate pulsava.
Luzes coloridas cortavam o ar, a música vibrava no peito, os corpos se moviam juntos, suados, livres. O cheiro de álcool, perfume e desejo era quase palpável.
Liana segurava o copo com força demais no início, mas depois do segundo drink, realmente começou a se soltar.
— À sua nova vida! — Babi brindou.
— À minha nova vida — Liana repetiu, sorrindo de verdade.
Elas dançaram juntas, riram, giraram no meio da pista. Em um momento de pausa, sentaram-se em um canto mais quieto.
— Então — Babi disse, séria de repente. — Você nunca contou direito. O que te fez vir pra cá?

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