Liana desceu as escadas devagar, ainda com aquela sensação estranha grudada na pele.
O tipo de cansaço que não era só físico.
Já estava arrumada, cabelo ruivo preso num rabo de cavalo baixo, uma blusa simples, jeans, nada chamativo. O celular novo no bolso, estava pronta para o trabalho, mas sua cabeça estava em outro lugar.
No pesadelo.
No sangue.
Na voz dentro da mente dela.
“Finalmente achei você… bruxa.”
Liana engoliu seco e continuou andando.
Quando chegou na sala de jantar, o cheiro de café fresco e pão quente a atingiu, mas não trouxe o conforto que deveria. O ambiente parecia tranquilo demais para tudo o que ela carregava dentro do peito.
Dante estava sentado à mesa, com Kian no colo.
O garotinho ria de alguma coisa, enfiando um pedaço de pão na boca enquanto falava sem parar, animado, como se o mundo fosse simples e seguro.
Dante, por outro lado, tinha aquele mesmo ar fechado.
O maxilar travado, os olhos frios, o tipo de homem que parecia estar sempre pronto pra uma guerra… mesmo quando estava só tomando café da manhã com o filho.
Quando Liana apareceu, Kian foi o primeiro a notar.
— TITIA! — ele gritou, abrindo os braços.
A ruiva forçou um sorriso e se aproximou, recebendo o abraço apertado dele como se fosse a única coisa boa daquele dia.
— Bom dia, pequeno…
Kian beijou a bochecha dela com força, depois voltou pro colo do pai.
Dante não sorriu, o olhar dele passou pelo rosto dela, desceu um pouco, como se ele estivesse procurando algo, as sobrancelhas unidas e algo no olhar… Preocupação?
“Depois do jeito que ele me tratou ontem, claro que não estaria preocupado comigo”, Liana pensou balançando levemente a cabeça.
— Você tá bem? — o alfa perguntou, num tom meio duro, meio impaciente, como se a preocupação estivesse disfarçada atrás da irritação.
Liana pegou uma caneca e sentou do outro lado da mesa.
— Tô.
Dante estreitou os olhos.
— Essa foi a resposta mais mentirosa que eu já ouvi na vida.
Liana bufou, levando o café até a boca.
— Só tô cansada.
— Cansada do quê? — ele insistiu.
O jeito que ele perguntava… não era como se estivesse curioso.
Era como se estivesse exigindo, como se tivesse o direito de saber, e isso a incomodava. Liana sentiu o sangue esquentar.
— Cansada de tudo, Dante — respondeu, simples. — Mas não é problema seu.
O olhar dele escureceu, o ar ao redor pareceu mudar um pouco, como se o lobo dele se agitasse por baixo da pele.
— É meu problema sim — ele rosnou, baixo. — Você tá debaixo do meu teto.
— Lá vem você com essa merda de novo… Vamos lembrar que estou aqui por obrigação — Liana revirou os olhos. — Não começa.
Kian percebeu a tensão e arregalou os olhos.
— Papi… — ele falou baixinho. — Não briga com a titia…
Dante respirou fundo.
Por um segundo, a raiva dele recuou, mas só um segundo.
— Você não vai trabalhar hoje — ele disse de repente, seco, direto.
Liana congelou.
— Eu vou sim.
— Não vai.
A frase saiu como uma ordem, e aquilo… foi o suficiente pra Liana sentir a paciência dela estourar de vez. Ela colocou a caneca na mesa com força.
— Eu não sou sua prisioneira, vou fazer a merda que eu quiser.
Dante inclinou o corpo pra frente, a voz ficando mais baixa, perigosa.
— Você passou a madrugada tremendo, resmungando coisas que eu não entendia. Tem alguma coisa acontecendo.
Liana travou, seu coração deu um salto e ela tentou disfarçar, mas o olhar dele era afiado demais.
— Não faço ideia do que você tá falçando.
— Agora já sabe — Dante respondeu, sem piscar. — Estava queimando em febre.
Liana engoliu em seco.
Ela odiava aquilo.
O jeito que ele percebia as coisas antes mesmo dela, o jeito que ele enxergava por baixo da pele dela.
— Eu tô bem — ela repetiu, firme. — E eu vou trabalhar.
Dante ficou imóvel por alguns segundos, encarando-a como se estivesse medindo o quanto ela aguentava bater de frente.
Então falou, num tom que parecia mais contido… mas ainda cheio de autoridade.
— Fica em casa hoje. Só hoje. Por favor, Liana.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A babá sequestrada pelo alfa