Família Ramos. Tinha que ser a Família Ramos de novo.
Lembrei-me do estado do motorista acidentado na sala de cirurgia e acrescentei:
— O paciente apresentou flexão plantar espasmódica na mesa de cirurgia. Era um sinal óbvio de overdose de medicamentos antipsicóticos. Se for mesmo isso...
— Eu já pedi para refazerem os exames de sangue do motorista — Gabriel respondeu sério do outro lado da linha. — Parece que a polícia ainda não suspeitou disso.
— Então a gente chama a polícia agora?
— Não. A rede de contatos da Família Ramos em Porto Real é complexa. Sem provas concretas, não podemos alertar ninguém — Gabriel argumentou com razão. — Tenho um amigo repórter. Acho que ele pode investigar primeiro para ver o que descobre.
Já faziam quase quarenta e oito horas desde o acidente, e a Logística Transoceânica, além de se desculpar pelo motorista, não tinha feito mais nada. Estava claro que não queriam assumir a responsabilidade.
— Certo, vou organizar os documentos. Vamos nos falando.
Depois de desligar, nós nos dividimos. Quando terminei de juntar os papéis, já era quase meio-dia.
Foi quando chegou uma mensagem no grupo de trabalho. Abri para olhar e levei um susto.
Era uma foto do meu armário coberto de tinta.
Tinha uma frase escrita em letras garrafais: "Quem protege um criminoso não merece usar o jaleco médico."
Pelos detalhes e posição do armário, era exatamente o lugar onde eu costumava me trocar.
Meu jaleco branco já estava manchado com a tinta.
E quem mandou a foto no grupo não foi outra pessoa senão Camila Borges.
"A Dra. Monteiro tem que tomar cuidado, viu? Vai que um radical desses fica plantado na porta do seu prédio. Se cuida!"
Depois de mandar a imagem, ela ainda acrescentou essa frase de "preocupação".
E me marcou.
Na mesma hora o grupo virou uma loucura. Uns discutiam a relação entre médico e paciente, outros temiam pela própria segurança, e tinha quem zombasse de mim, dizendo que eu agia por impulso e sem pensar nas consequências. Todo mundo falando ao mesmo tempo.
Antonella também mandou mensagem no meio disso tudo.
"A situação estava um caos na hora, e a Noemia não sabia quem era o motorista. Ela só fez o trabalho dela como anestesista, peço que tenham compreensão com ela."
Assim que ela terminou de escrever, uma enfermeira respondeu, criticando: "Eu avisei a Dra. Monteiro na hora, mas ela nem quis saber e enfiou o assassino na sala de cirurgia! Por que você está defendendo ela?"

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