Ela merece.
Quando essas palavras chegaram aos meus ouvidos, fiquei em choque por um instante. Minha respiração ficou desordenada.
Acho que foi a primeira vez que ouvi Norberto Cavalcante me avaliar de forma positiva. E teve um peso e tanto.
Isso quer dizer que Norberto, no fundo, aprovou a minha escolha daquele dia?
Eu não diria que fiquei eufórica, mas, de certa forma, essa frase me deu um pouco de esperança.
Afinal de contas, nesses dias ouvi mais críticas e difamações do que o contrário.
Especialmente hoje, em que meu próprio supervisor do estágio, Dr. Carranca, me expôs perante um grande número de colegas, fazendo-me duvidar de mim mesma.
E Norberto, o cara que sempre me oprimiu, virou um dos meus raros apoiadores.
— Aquela menina deixou o celular para trás?
A voz quebrou o silêncio e eu me lembrei do verdadeiro propósito de retornar à sala, de modo que respirei fundo e bati na porta.
Enquanto três pares de olhos olhavam para mim em uníssono, observei a mesa onde repousava o celular e disse:
— Eu esqueci uma coisa.
Falei isso e me dirigi à mesa inexpressivamente.
No entanto, quando passei ao lado de Norberto, uma culpa subiu-me de imediato.
Ele permanecia do mesmo jeito que sempre. Agia com naturalidade, não como se a frase "ela merece" não tivesse vindo de sua própria boca, mas sim como se fôssemos meros conhecidos.
De repente, achei que eu estava me empolgando à toa.
Ele é Norberto Cavalcante; é a imagem viva do Hospital Memorial, membro do atual comitê, o que tornava seu papel defender os interesses do Memorial. Se ele tomava o tempo para resolver as coisas, provavelmente não tinha a ver com a pessoa que eu era, mas simplesmente porque eu era uma estagiária do departamento de anestesiologia.
Em outras palavras, ele não estava tentando me proteger.
Isso não tinha nada a ver com o nosso relacionamento de casamento arranjado.
Aquele sim era Norberto Cavalcante.
Pensando nisso, peguei meu celular com indiferença, e deixei a sala sem expressar qualquer tipo de emoção.
Mas meu coração deixou de sentir aquele peso absurdo.
De volta ao departamento, abri e li repetidamente meu manual de estagiária anestesista. Fiquei nisso até a noite cair, momento no qual consegui me organizar mentalmente e estabilizar a mim mesma.
Meu momento foi cortado pela interrupção do celular, que tocou uma vez.

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