Essa pergunta bateu forte no meu peito, doeu como se tivessem me esfaqueado.
Aquele baque mexeu nas minhas bases em mim um minuto; caí das presas dessa cilada para depois me revoltar mais: — Casada eu? Da onde tiraram o boato?
— Você! — A raiva de Norberto pareceu ter sido bloqueada pela minha pergunta cheia de deboche, e ele ficou paralisado de repente.
Continuei questionando: — O senhor não está falando de si mesmo, não é? Se não dissesse nada, eu já teria esquecido. Então o senhor ainda lembra da sua posição? E quando o senhor ficava desfilando com a amante todo dia na minha frente, em romances cheios de intimidade em plena luz do dia, o senhor sabia o que era respeito?
O canto da boca de Norberto tremeu de raiva: — Que romance...
— Pare de bancar a vítima sendo que a pior pessoa dessa história é você; que ridículo esse seu teatro.
— Não vou dar espaço para você inventar desculpas. Vou falar a verdade sem rodeios.
Por anos, eu aguentei tudo calada, engolindo todos os insultos sem reclamar nada. Principalmente em relação ao Norberto.
Eu dei todo o meu amor para esse homem por pelo menos oito anos, entregando tudo de mim, e no final todo esse carinho acabou sendo jogado no lixo. Antigamente eu nem suportava a ideia de causar o menor machucado a ele.
Só esqueci que o casamento precisa de duas pessoas se doando. Quem ama sozinha acaba só sendo um capacho.
Quanto mais eu amava, mais eu me entregava e dava os meus pontos fracos. Deixei que ele me manipulasse, me humilhasse e me machucasse.
Até chegar a este ponto, onde eu não suportava mais e decidi reagir.
Norberto pareceu furioso com o que falei. Aquele rosto bonito começou a ficar vermelho. Em seus olhos, escuros como um poço, o clima estava pesado, mas havia uma leve e dolorosa vermelhidão nos cantos dos olhos.
Por ali eu pude perceber até lágrimas sob as bordas que caiam.
A feição brava com dores nas presas sem saída.

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