Antes, ela achava que Arthur nutria algum sentimento por Beatriz.
Mesmo que fosse uma posse doentia, ou uma prisão forçada, ele ainda devia se importar. Mas, após a morte de Beatriz, ela conseguiu entender as coisas.
Provavelmente, ele nunca havia amado Beatriz.
Mas, no papel de Sra. Valente, Beatriz era o enfeite mais bem feito para manter as aparências. Um item necessário para a vida que levava.
Aquele "sentimento profundo" ou aquele "apego", sempre foram só uma fachada para ele manter as aparências.
Ele fingia na frente de todos e ficava indiferente pelas costas.
Helena reprimiu seus pensamentos e continuou num tom dócil:
— Eu sei que você se apega fácil. Mesmo não sendo amor, vocês passaram muito tempo juntos. Uma hora ou outra surgem sentimentos. Você não precisa aguentar tudo isso. Se tiver triste, é só falar. Não finja estar calmo.
Arthur entreabriu os lábios, e falou de forma fria: — Não precisa. Ela já morreu e dizer qualquer coisa agora não vai adiantar de nada.
— Mas você não parece nem um pouco triste.
Helena não se conteve e perguntou, como se o testasse: — Arthur, você... não vai sentir saudade dela?
Arthur respondeu: — Não serve de nada sentir saudade. Ela já se foi.
Ele estava muito calmo e sensato. E isso acabou com qualquer dúvida de Helena.
Beatriz, para ele, não passava de um passado que não importava.
Helena suspirou aliviada: — Verdade. Os mortos não ressuscitam, e nós precisamos seguir em frente.
— O que passou, passou. De hoje em diante, eu vou te acompanhar.
Arthur não correspondeu. Só deu as costas e foi em direção ao lugar onde estacionou o carro.
— Vamos.
Seus passos estavam estáveis, e as costas eretas.
Helena olhou para as costas dele, deu um sorriso de leve e o acompanhou.
Estava tudo certo.
Beatriz estava morta. Sumiu do mapa e do mundo de todo mundo.
Agora, não tinha mais ninguém para atrapalhar os dois. Helena podia ficar do lado de Arthur de forma legítima e conseguir tudo o que pertencia a Beatriz.
—
Do outro lado.
Beatriz estava vivendo a tranquilidade e a liberdade que esperou por vários anos.
Após sofrer uma histerectomia e suportar o período de recuperação, seu corpo foi melhorando de forma constante.
Ela vestia um suéter solto e o cabelo longo estava amarrado para trás de forma bagunçada. Seu rosto estava saudável, diferente de antes.
Pelo menos a liberdade era uma realidade a partir daquele momento e não ia ser um peso na vida de ninguém.
O celular acendeu com o pedido de Gabriel, com uma videochamada do exterior.
Beatriz arrumou as anotações que tinha nas mãos, e apertou a tela do celular para atender a ligação.
Gabriel estava vestido com o avental branco no laboratório que ficava no país. Com um olhar gentil e muito mais disposto.
— Beatriz, como está o corpo hoje? A recuperação foi tranquila? — Gabriel tomou a palavra primeiro, com um tom de preocupação.
— Muito bem. — Beatriz assentiu devagar, de modo pacífico. — Está bem estável, meus exames de controle saíram todos normais. E agora posso focar nas minhas pesquisas e nos meus estudos.
— Isso é bom. — Gabriel se aliviou e foi direto ao ponto. — Olhei as últimas estatísticas sobre o seu medicamento direcionado para o câncer, as coisas fluíram e já estamos a par do que devemos cuidar.
— E estamos perto de um teste clínico, de modo que poderemos seguir com o projeto mais para frente.
Beatriz disse: — Sim. Por aqui vou continuar no controle das estatísticas. Para deixar os dados certos.
O homem ficou uns segundos calado do outro lado da chamada, antes de fazer uma pergunta decisiva.
— Tem uma coisa que eu preciso confirmar com você com certa antecedência.
— Fale.
— A sua pesquisa, o resultado dela, é o centro de tudo.
— Agora todos pensam que você está morta e não tem mais a Beatriz no país. — O homem disse sério. — O que vai fazer a partir de agora? Em relação aos remédios ou as patentes em seu nome?

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