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A FILHA DO ERRO. Quando a vida cobra o que a noite escondeu romance Capítulo 5

Algumas coincidências são apenas mentiras mal explicadas.

O escritório de Caetano Siqueira Gouveia era um território de silêncio absoluto. Não um silêncio vazio, mas um silêncio cultivado, disciplinado, quase reverente, como se cada centímetro daquele espaço tivesse sido treinado para não interferir em seus pensamentos. As paredes claras, o vidro, a madeira escura, os objetos organizados com precisão milimétrica, tudo ali existia para não provocar emoções. Para não distrair. Para não exigir.

Ele gostava assim.

A previsibilidade o acalmava.

Sentado atrás da mesa, Caetano deslizava os dedos pela tela do tablet sem realmente enxergar o que lia, até perceber, mais pelo instinto do que pela audição, que alguém havia entrado na sala. Sandro, seu secretário, permanecia parado à frente, segurando uma pasta fina, esperando autorização para falar.

— Senhor, aqui está o dossiê da nova babá.

Caetano não ergueu os olhos.

— Só quero saber se ela é qualificada.

— Muito, senhor.

Ele respirou fundo antes de levantar o olhar.

— Em que área?

— Está no último estágio para formação em pediatria.

O corpo dele reagiu antes que a mente pudesse organizar qualquer pensamento. Foi uma reação mínima, quase imperceptível, mas real. Um leve tensionar no maxilar, um deslocamento súbito da atenção, como se alguém tivesse puxado um fio invisível dentro dele.

— Pediatria?

— Sim, senhor.

— Onde?

Sandro abriu a pasta com cuidado, como se o gesto tivesse peso.

— Orlando.

A palavra caiu dentro de Caetano como algo sólido.

Orlando.

Ele não piscou. Não demonstrou nada. Não moveu um músculo sequer do rosto. Mas o coração deu um salto seco, como se tivesse tropeçado em uma memória que não esperava encontrar.

Serena.

Ela também estudava pediatria em Orlando.

A lembrança surgiu inteira, clara demais, viva demais. Ele a empurrou de volta para dentro de si como quem fecha uma gaveta com força.

— Notas?

— Excelentes. Histórico impecável.

Impecável.

Ele não gostava de coincidências.

— E os exames, médicos?

— Saúde perfeita, senhor.

— Ela aceitou amamentar a criança?

— aceitou sim, senhor.

— Ela explicou o que houve com bebê dela?

Sandro hesitou por um segundo.

Foi um segundo curto, mas Caetano percebeu.

— Morreu no parto. Há dez dias.

Ele franziu o cenho, lentamente.

— Só dez dias? Muito recente, estranho.

— Sim, senhor.

— Ela ainda está em recuperação. E já começou a trabalhar?

— Necessidade, senhor. Acreditamos que ela precise muito.

Caetano apoiou o cotovelo na mesa, o olhar fixo em um ponto qualquer da parede.

Dez dias.

Não era racional, mas algo naquele número o incomodava.

— O qué ela falou sobre a família?

— Está sozinha senhor, sem familiares.

— Marido? Outros filhos?

— Solteira, senhor, veio do interior.

— Aceitou tempo integral? Moradia?

— Aceitou sim senhor. Salário dobrado.

— Melhor que seja assim, eu viajo muito.

Sandro assentiu.

— O sheik quer a confirmação da sua ida.

Caetano levou a mão à testa.

— Merda. Eu me esqueci disso.

— Posso confirmar?

— Confirma. Eu viajo hoje. Não vou para a casa neste fim de semana.

— Devo avisar a Célia e que avise a babá?

— Não acho necessário, elas não sabem?

— Entendido senhor, Célia deve saber sim.

Quando Sandro saiu, o silêncio voltou.

Mas já não era o mesmo.

Caetano permaneceu alguns segundos olhando para a tela apagada do tablet, sentindo uma inquietação que não sabia nomear. Orlando, Pediatria.

Uma estranha com apenas dez dias.

Ele não queria pensar.

A BABÁ QUE ELE NÃO ESPERAVA 1

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