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A Filha Invisível romance Capítulo 1

No terceiro ano no hospital psiquiátrico, a auxiliar de enfermagem caminhava pelo corredor de cenho franzido, chutando os pacientes agachados no chão, que brincavam de empilhar corpos. Quando se dispersaram aos gritos desconexos, revelou-se, no fundo da pilha, uma mulher encolhida e imóvel.

Seus cabelos estavam uma bagunça, cobrindo o rosto, e seus olhos estavam vazios enquanto ouvia as palavras ríspidas da enfermeira acima dela.

“1030, você tem visita da família. Levanta e se arruma.”

Família... Estaria falando das mesmas pessoas que a jogaram naquele hospital psiquiátrico e a deixou lá por três anos? Aquela já não era mais a sua família.

Ao ver que a mulher permanecia imóvel, como um cadáver no chão, a auxiliar de enfermagem a puxou pelos cabelos com impaciência, obrigando-a a se levantar. “Está querendo morrer, é? Não está me ouvindo?”

Yunice Saunders abraçou a cabeça com as duas mãos enquanto era arrastada pelo colarinho até o banheiro. A enfermeira ligou o chuveiro de alta pressão, encharcando a jovem, que estava encolhida no canto, como se fosse um animal preso numa jaula.

Vinte minutos depois, ela foi levada até a sala de visitas.

“Senhor Owen, a 1030 está aqui pra te ver.”

O olhar vazio de Yunice se voltou para o homem sentado no sofá. Ele mantinha as mãos entrelaçadas, e os cotovelos apoiados nos joelhos, com uma expressão carrancuda de aborrecimento e ressentimento. Ele era seu segundo irmão mais velho, Owen Saunders.

Quando ela nasceu, sua mãe e seu pai haviam brigado, e após dar à luz, a mãe saiu de casa. O pai procurou por ela em vão, e acabou falecendo quando Yunice tinha 13 anos. Depois disso, Oscar Saunders e Owen assumiram a responsabilidade pela família. Naquela época, juraram que, enquanto estivessem por perto, ninguém jamais faria mal a ela. Agora, ao ver aquele rosto familiar novamente, Yunice sentiu uma pontada aguda no peito, mas seu olhar se tornou frio.

A mágoa era verdadeira, mas o ressentimento também. Ele já não se importava com ela e foi quem a internou naquele hospital.

Owen também levantou os olhos para encarar Yunice. No caminho até ali, imaginou que, depois de três anos separados, ela certamente teria reconhecido seus erros e correria para seus braços, pedindo perdão. Mas não. Ela apenas ficou parada com uma expressão gelada. Ele tinha ido ali cheio de expectativas, pronto para levá-la de volta para casa, mas ela sequer o cumprimentou.

Owen tinha a intenção de se levantar e abraçá-la, mas hesitou e acabou falando com irritação na voz. “A Elsie sente sua falta. Ela implorou pra eu te trazer pra casa. A partir de hoje, você pode sair do hospital psiquiátrico.” Quando finalmente obteve alguma reação de Yunice, seu tom mudou. “Mas tem uma condição. Quando voltar, não pode criar problemas.”

O rosto de Yunice se fechou. Eles realmente achavam que, se ela não criasse problemas para Elsie White, tudo em casa voltaria ao normal? A própria Elsie havia contribuído para que ela fosse internada naquele lugar.

Cinco anos atrás, a polícia encontrou sua mãe, que estava desaparecida havia 15 anos, junto com Elsie, um ano mais nova que Yunice, e as levou de volta à família Saunders. Foi então que Yunice soube que sua mãe havia sido sequestrada por traficantes de pessoas e levada para as montanhas, onde foi forçada a ter uma filha. Ou seja, Elsie era sua meia-irmã.

A reunião familiar emocionou profundamente Oscar e Owen, e eles aceitaram Elsie sem ressentimentos, tratando-a como uma irmã de verdade. No começo, Yunice também a acolheu de coração aberto, querendo recuperar o tempo perdido. Mas Elsie passou a agir pelas costas, sempre armando contra ela. Para não entristecer seus irmãos nem deixar sua mãe desconfortável, Yunice sempre engoliu tudo calada.

Até que, três anos atrás, ela ficou presa num incêndio, e Elsie insistiu em entrar para salvá-la. Quando Owen as encontrou, arrancou a máscara de gás do rosto de Yunice para colocá-la em Elsie.

Vida boa, no hospital psiquiátrico? Yunice ficou atônita. Ele não fazia ideia do que era aquilo ali? Estava cheio de loucos! Gente fora da realidade, sem lei, sem moral! Eles rasgavam suas roupas, cutucavam seu rosto com a parte de trás de uma colher, e adoravam empilhar corpos. Vários deles se jogavam por cima dela, esmagando seu peito e seus quadris, sufocando-a até a inconsciência. E mesmo que um maluco a matasse, ninguém responderia por isso!

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