Gianna arrastou Yunice para fora da banheira à força. Quando não encontrou o celular com ela, começou a vasculhar o resto do banheiro. No instante em que tentou abrir a caixa d’água do vaso sanitário, Yunice correu e apertou o botão de descarga!
Ao ver a expressão nervosa no rosto de Yunice, Gianna reagiu rápido e levantou a tampa do vaso. Mas, lá dentro, além da água jorrando com força, não havia mais nada. O celular foi mesmo descartado?
Gianna aproveitou a oportunidade, triunfante, e apontou para Yunice. “Roubou? O Sr. Owen não vai deixar isso barato!”, disse, animada, saindo correndo para contar tudo.
Owen estava em seu quarto, inquieto. Desde que Yunice voltou, ele vinha sentindo que ela estava diferente, mais distante, o que não acontecia antes, quando era tão próxima dele. Incomodado, ele pegou um presente que havia separado para ela, um colar.
No ano em que o pai deles morreu, Yunice perdeu o interesse por tudo, menos por aquele colar. Mas, na época, ele e Oscar estavam ocupados demais cuidando dos assuntos da família e não conseguiram atender ao seu pequeno pedido.
Owen murmurou para si mesmo: “Se nem com esse presente ela mudar de atitude, então é só ingratidão.”
Quando se preparava para ir atrás de Yunice, Gianna apareceu correndo, com cara de quem tinha algo a dizer. Mas antes que abrisse a boca, Lily agarrou o braço de Owen, aflita: “Owen, rápido! Vai ver a Elsie, ela está tendo outro ataque!”
Instantes depois, passos apressados ecoaram pela casa, seguidos dos soluços de Lily. Poucos minutos depois, o silêncio reinou novamente.
Yunice saiu do quarto com os cabelos molhados e os pés descalços. A casa estava tão silenciosa que ela podia ouvir seu próprio coração bater. Ela sabia que ninguém se importaria com seu retorno naquela noite. Elsie era especialista nisso sempre que algo importante acontecia na vida de Yunice, ela dava um jeito de ter uma “crise” para roubar a atenção.
No dia do vestibular, Elsie derrubou água no cartão de inscrição da irmã, entrou em desespero e teve uma crise de asma. Para levá-la ao hospital, deixaram Yunice na rua, quase perdendo a prova. No baile de debutante, a outra ficou “tão feliz” por ela que teve outra crise. Yunice foi deixada sozinha na festa, enfrentando os cochichos dos convidados.
Até mesmo no segundo aniversário de morte do pai, Elsie fez um escândalo ajoelhada diante do túmulo, se esbofeteando e chorando que era culpada por destruir a família dele, e desmaiou de tanto sofrer. Depois disso, Oscar e Lily decidiram que não fariam mais homenagens para evitar “lembranças tristes”.
Yunice deu um sorriso amargo. Não era de se estranhar que o mato no túmulo do pai estivesse tão alto. Desde que ela foi internada no hospital psiquiátrico, ninguém mais cuidou da sepultura. E agora, mais uma crise de Elsie só pra lembrar que nada mudou, mesmo com o retorno de Yunice.
As palavras de Lily sobre “ainda sermos uma família” … Que piada.
Na clínica, Yunice teve muitos pensamentos sombrios. E se Lily nunca tivesse trazido Elsie pra casa? E se Lily nunca tivesse sido salva?
Mas com o tempo, o amor se esvaiu e o ódio se apagou. No fim, ela não queria mais Oscar, nem Owen, nem Paul. Só queria sair daquele hospital e recuperar as poucas coisas que seu pai havia deixado para ela.
Mas antes, precisava sobreviver.
Yunice olhou para o segundo andar, onde ficava seu antigo quarto. O olhar dela escureceu.
…
Na casa de penhores.
O atendente passou um cartão bancário pela janelinha num piscar de olhos. “Penhor morto, três meses. Sem renovação. Tem 300 mil na conta, sem senha.”
Yunice pegou o cartão com firmeza e o apertou na mão. Era uma casa de penhores ilegal, onde ninguém pedia documento nem fazia perguntas sobre a origem do item. Você dava algo, eles avaliavam e pagavam.
Ela penhorou uma pulseira, uma das lembranças do pai. Em três meses, precisaria de quinhentos mil para reavê-la.
Oscar tinha manipulado seu registro civil, trocando suas digitais pelas de Elsie. Mesmo que fosse pessoalmente renovar o RG, não conseguiria.
Quando estava prestes a empurrá-la para o lado, Yunice agarrou a gola dele com uma força surpreendente.
No segundo seguinte, os papéis se inverteram. Agora era Wyatt quem estava contra a parede. Yunice puxou o gorro e o cachecol de uma vez. Os cabelos longos caíram emoldurando seu rosto delicado. Wyatt congelou por um instante.
Sem hesitar, ela puxou as calças até os tornozelos com uma mão e, com a outra, passou o braço por dentro da gola da blusa, transformando o uniforme em um modelo ombro a ombro, revelador.
Foi nesse momento que os perseguidores entraram no beco.
Yunice pressionou as mãos contra o abdômen de Wyatt, o corpo todo se movendo contra o dele.
“Ai… você é bom demais, eu não aguento mais… ah… você tá me destruindo…”, gemeu ela, inclinando a cabeça para trás sob a luz do poste.
Os homens acenderam as lanternas e apontaram na direção deles. Wyatt levantou a mão para cobrir o rosto.
O mercado negro era um lugar sujo, cheio de viciados e cafetões. Ao verem um homem se divertindo com o que parecia uma prostituta, os perseguidores logo perderam o interesse. O sujeito claramente não era o manco que estavam caçando.
Ao ver os músculos abdominais expostos encostados nela, riram com desprezo e seguiram em outra direção.
Quando os passos se afastaram, Yunice soltou mais alguns gemidos exagerados antes de olhar com cautela para onde os homens haviam ido.
Certa de que tinha acabado de escapar de um grande perigo, virou-se… apenas para se deparar com um olhar afiado e penetrante.

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