O coração de Thalassa doeu com aquelas palavras… Palavras que tanto queria acreditar, embora a experiência amarga de já ter sido ferida a lembrasse de que cair outra vez seria puro engano.
— Confiar meu coração a você? — Zombou ela, inclinando a cabeça para o teto antes de voltar a encará-lo. — Será que esqueceu, Kris? No momento em que nos casamos, há quatro anos, depositei em você toda a confiança do meu coração. Eu acreditava na sua promessa de felicidade, mas, ao invés de cumpri-la, fez de tudo para me tornar a mais infeliz!
Ela soltou uma risada amarga.
— E você ainda diz que quer estar ao meu lado? Onde você estava, Kris, quando eu perdi o nosso filho? — A voz dela falhou, carregada de raiva e dor. — Onde você estava quando eu estava deitada naquela cama fria de hospital, de luto, assustada, sozinha, me perguntando o que eu tinha feito para que a vida fosse tão cruel comigo?
Kris abriu a boca para responder, mas ela ergueu a mão livre para silenciá-lo.
— O que vai dizer? Que não sabia? Que não tinha certeza se a criança era sua? O que isso mudaria agora?
As lágrimas ameaçaram cair, mas Thalassa piscou para afastá-las, determinada a não deixá-las escorrer. Então, respirou fundo, se recompondo contra o peso das lembranças que a esmagavam.
— Eu não precisei de você nos últimos três anos. — Disse, com a voz endurecendo. — E com certeza não preciso de você agora.
Dito isso, ela se virou para sair, no entanto, o aperto de Kris em seu pulso se firmou.
— Não, Thalassa… — Ele implorou, com a voz suave. — Eu não vou me apoiar em desculpas, já que o erro foi meu. A verdade é que você está certa: eu falhei em estar lá.
Uma lágrima escorreu por sua bochecha enquanto ele continuava.
— Eu queria poder desfazer cada erro que cometi... Queria poder consertar tudo, mas não posso. E sei que não mereço seu perdão. Mas, se você me der outra chance, vou te mostrar como tudo pode ser diferente.
O maxilar de Thalassa se contraiu.
— Como você pode me prometer que tudo será diferente se se recusa a buscar justiça pelo assassinato do nosso filho?
Kris a encarou.
— Mas eu busquei… Mandei prender a Karen, não mandei? Foi você quem escolheu soltá-la.
Um sorriso cheio de amargura curvou os lábios dela, deixando claro que, para Kris, a mãe dele jamais seria vista como a vilã que era.
— Você tem razão. — Afirmou ela com calma. — É triste, não é? Que a vida não nos dê a chance de desfazer os erros. Se desse, eu voltaria e apagaria o dia em que me apaixonei por você.
Ele afrouxou o aperto como se tivesse levado um soco com aquelas palavras, e Thalassa, rápida, libertou o braço e se afastou. Contudo, não chegou a se distanciar muito: poucos passos depois, Kris a envolveu novamente, prendendo-a contra o próprio peito.
— Você não quis dizer aquilo… — Kris murmurou, com a voz embargada. — Eu sei que não quis.
— Me solta, Kris. — Ela se debateu no abraço, mas, mesmo com apenas um braço, ele não a soltou.
Foi apenas quando sentiu sua nuca se molhar que compreendeu: as lágrimas dele desciam.
— Você não está bem… — Ela comentou baixinho, correndo para a cozinha.
Ao retornar com o kit de primeiros socorros, Thalassa encontrou Kris já sentado em uma das cadeiras, transmitindo calma mesmo em meio à dor, e, com as mãos trêmulas, colocou o kit sobre a mesa e o abriu.
— Eu posso cuidar disso sozinho… — Kris tentou dizer, mas ela o ignorou.
As mãos dela tremiam levemente enquanto removia com cuidado a tipoia dele e, em seguida, desabotoava a camisa devagar, retirando-a do ombro com o olhar cheio de culpa ao ver o sangue que empapava a bandagem.
Com delicadeza, ela desfez o curativo e, pegando algodão e antisséptico, tratou o ferimento onde alguns pontos haviam se rompido, enquanto Kris a observava em silêncio, sentindo o coração se encher de alegria e tristeza ao mesmo tempo. “Ela ainda se importava… Apesar de tudo, ainda se importava.”
— Se é disso que preciso para que você me trate assim. — Ele disse em voz baixa, sem desviar os olhos. — Então não me importo de abrir esse ferimento quantas vezes for preciso.
— Para de falar besteira. — Thalassa retrucou, mas sem a mesma dureza de antes.
— Não é besteira. — Ele insistiu, com um sorriso fraco. — Eu suportaria qualquer dor para merecer o seu perdão.
Ele parou por um momento, mas acabou levando a mão ao rosto dela, passando o polegar pelas lágrimas já secas em sua bochecha, e Thalassa, embora se enrijecesse, não recuou.
— Nunca deixarei de me arrepender pelo modo como te tratei durante o nosso casamento. — Kris sussurrou, com a voz tomada pela emoção. — Mas, por favor, me concede uma segunda chance... Deixa eu provar que posso ser o homem que você merece…
Naquele instante, eles estavam tão próximos que as respirações já se confundiam, e, ao se inclinarem, os lábios ficaram a um sopro de se tocar.

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