— Meu Deus, nem sei o que dizer. Não consigo imaginar como deve ser ouvir algo assim. — Betty sussurrou, com a voz carregada de compaixão.
Sem precisar ouvir mais nada, Thalassa se entregou completamente ao abraço da mulher mais velha, chorando com uma intensidade que não sentia há tempos, até que os soluços foram se acalmando.
— Ninguém merece enfrentar algo tão cruel… Acredite, aquela mulher não ficará impune para sempre. — Betty murmurou, com a voz firme. — O karma vai cuidar dela.
— Karma? — Thalassa soltou uma risada amarga ao se afastar do abraço. — Não preciso de karma para lidar com ela, Bertha. Eu mesma vou trazer justiça pelo filho que perdi.
— É por isso que você voltou para Baltimore e só visita o Alex a cada duas semanas… — Betty deduziu, com o olhar perspicaz fixo em Thalassa. — Você tem tentado buscar justiça…
Thalassa assentiu, e um silêncio denso se instalou por alguns segundos antes que Betty hesitasse e perguntasse: — O Kris sabe que foi a mãe dele quem mandou te atacar no dia do divórcio?
O maxilar de Thalassa se contraiu.
— Ele se recusa a acreditar. Para ele, a mãe é uma santa.
— Você chegou a mostrar alguma prova para ele? — Betty insistiu com delicadeza.
— Não. — Thalassa admitiu, desviando o olhar, com a voz carregada de frustração.
— E quando você pretende contar para ele sobre o Alex?
O corpo de Thalassa se enrijeceu e a expressão de Betty se alterou em choque.
— Você não pretende contar para ele?
As narinas dela dilataram de raiva.
— Por que eu deveria? Ele não queria o filho. Se se importasse, não teria me expulsado quando contei sobre a gravidez! Passei todo aquele tempo sozinha. Me diga, Betty, por que ele merece um lugar na vida do meu filho, se nunca esteve presente?
Betty mordeu os lábios, dividida. Não tinha certeza se estava indo longe demais, mas decidiu falar mesmo assim: — Me perdoe, Thalassa, mas se entendi direito tudo o que você me contou, o Kris também foi vítima da mãe dele, tanto quanto você. — Disse ela suavemente. — E quando ele veio aqui ontem, vi o quanto estava desesperado para se redimir.
— Redimir? — Thalassa zombou, amarga. — Você não ouviu a parte em que ele me fez sofrer o casamento inteiro?
— E o tempo de antes? — Betty perguntou, com a voz firme mas gentil. — Você disse que ele mudou completamente depois do casamento, o que me faz pensar que antes as coisas eram diferentes.
O coração de Thalassa se apertou dolorosamente ao se lembrar de como era seu relacionamento com Kris antes do casamento. Ele tinha sido o homem perfeito, o mais atencioso e amoroso, sempre disposto a fazê-la sorrir, a ponto de enfrentar a própria mãe quando ela desaprovou o relacionamento, indo contra toda a família até que finalmente a “aceitassem”.
No entanto, ela sacudiu a cabeça, afastando as memórias, e voltou a encarar Betty.
— O fato de ele já ter me feito feliz não apaga o sofrimento que veio depois.
Um brilho de compaixão surgiu nos olhos de Betty.
— E ainda assim você o ama.
Thalassa quis negar, mas a garganta se fechou e as palavras não saíram, porque estava cansada de fingir, e sabia que Betty era perspicaz demais para acreditar em mentiras.
— E daí, Betty? — Sussurrou ela, com um sorriso amargo surgindo nos lábios. — E se eu ainda o amar? Nunca vou ser feliz com ele, porque toda vez que olho para ele, lembro de tudo o que a mãe dele fez comigo… E de como ele não fez nada para me proteger.
Betty não insistiu, sentindo o peso da dor dela. Logo, Thalassa soltou um suspiro pesado.
— Estou voltando para Baltimore hoje à noite.
A testa de Betty se franziu, surpresa.
— Mas você está aqui só há dois dias. Pensei que ficaria mais um.
Thalassa assentiu, séria.

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