Kris, Thalassa, Smoke e os homens dele emergiram do galpão justamente quando as chamas rugiram atrás deles, lançando um brilho espectral sobre seus rostos por causa do calor do incêndio.
A alguns metros do incêndio, eles se detiveram sem trocar palavra, observando o galpão ser devorado pelo fogo enquanto o coração de Thalassa martelava no peito, movido não só pela exaustão da corrida, mas também pelo grito lancinante que ainda pairava no ar.
Linda.
O som provocou um arrepio em sua espinha e, quase sem perceber, ela se aproximou ainda mais de Kris, sentindo os braços dele se apertarem ao seu redor com um aperto quase doloroso. Imóvel diante das chamas, o maxilar cerrado e o olhar firme, ele parecia lutar contra algo dentro de si, e ela percebeu, sem precisar olhar seu rosto, o quanto aquilo o abalava.
O grito continuou, aumentando de intensidade até que, de repente... Cessou.
Quando o clamor se extinguiu, o que veio depois pareceu ainda mais alto: o silêncio opressor, quebrado apenas pelo fogo que crepitava e pelas vigas do galpão que ruíam uma a uma.
Logo, Thalassa ergueu o olhar para Kris, cujo rosto permanecia impassível, embora os olhos o traíssem.
— Kris... — Sussurrou ela, com a voz baixa, mas hesitante.
Ainda com o olhar cravado no galpão e o maxilar travado, ele não respondeu de imediato, e apenas quando o teto desabou com um estrondo é que se virou para encará-la.
Por fim, Kris afrouxou o abraço e a virou com delicadeza até que ficasse de frente para ele, envolvendo o rosto dela entre as mãos e acariciando suas bochechas com os polegares enquanto a observava com um olhar tomado pelo desespero.
— Você está bem? — Perguntou com a voz rouca, quase num sussurro. — Eles... Chegaram a te machucar? A Linda mandou que fizessem algo com você...?
A respiração de Thalassa falhou diante da pergunta, e imagens invadiram sua mente: as cordas cortando seus pulsos, o riso debochado dos homens se aproximando, e o momento desesperador em que ela entendeu o que pretendiam fazer. Apesar disso, ela respirou fundo, engoliu em seco e afastou a lembrança, consciente de que Kris não devia suportar mais esse fardo.
Logo, ela balançou a cabeça com firmeza, forçando a voz a se manter estável.
— Não. Eles não fizeram nada comigo.
O alívio no rosto de Kris foi imediato e quase palpável, e os ombros dele cederam quando soltou um suspiro pesado.
— Graças a Deus… — Murmurou ele, encostando a testa na dela com a voz reduzida a um sussurro quebrado. — Você não faz ideia do inferno que vivi quando percebi que eles tinham te levado. Thalassa, me desculpa... Eu não devia ter te deixado sozinha. Eu devia...
— Você fez o que precisava fazer. — Interrompeu ela com suavidade, agora segurando o rosto dele entre as mãos, enquanto seus polegares imitavam os dele, acariciando-lhe o rosto. — Você estava cuidando da sua filha. Mesmo que tivesse ficado, não haveria muito o que pudesse fazer.
— Mas...
— Sem "mas" — Murmurou, mantendo a voz firme apesar da emoção que transbordava por dentro. — Eu estou aqui. Estou viva. Está tudo bem, Kris. De verdade.
A respiração dele continuava irregular à medida que assentia, entregando-se ao toque dela. E, por um breve instante, permaneceram apenas assim, com as testas coladas, absorvendo a presença um do outro.
O ronco de um motor quebrou o silêncio e os arrancou do torpor, trazendo-os de volta à realidade. Thalassa virou-se a tempo de ver um veículo conhecido estacionar ao lado do carro de Smoke, e, num movimento brusco, as portas se abriram com força, fazendo Luisa e Alden saltarem apressados.
— Thalassa! — Gritou Luisa, correndo em sua direção.
Ao recuar, Kris deixou que Luisa a envolvesse num abraço firme, e as duas se apertaram com tanta força que Thalassa sentiu as lágrimas arderem, ameaçando escapar.
— Eu fiquei tão assustada… — Murmurou Luisa, com a voz trêmula. — Aquela bruxa... Eu achei que ela fosse fazer algo horrível com você.
O corpo de Thalassa enrijeceu ao ouvir o nome de Linda, e ela lançou um olhar rápido para Kris, que permanecia a alguns passos de distância, com os olhos fixos no galpão. Seu rosto estava inexpressivo, embora as chamas refletissem nos olhos dele, agora frios.
Nesse instante, Luisa finalmente percebeu o incêndio e se afastou um pouco, franzindo a testa em confusão.

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