Thalassa parou diante da cobertura de Kris, com o dedo suspenso sobre a campainha, hesitando por um instante ao pensar se não seria melhor ter esperado até o dia seguinte, mas, ainda assim, acabou pressionando o botão outra vez.
Finalmente, a porta se abriu e Kris surgiu ali, alto e de ombros largos, com uma expressão impossível de ler, enquanto uma garrafa de uísque meio vazia pendia frouxamente de sua mão, fazendo o peito dela se apertar de dor ao vê-lo assim.
— Thalassa. — Ele franziu as sobrancelhas, em sinal de preocupação. — O que foi? Aconteceu algo de novo?
Ela balançou a cabeça depressa, com as mãos inquietas ao lado do corpo.
— Não, nada disso. — Respondeu em um tom suave, quase hesitante. — Eu só... Queria te ver.
Ao ouvir isso, ele estreitou o olhar
— Mas… Eu te disse que tinha coisas para resolver.
No mesmo instante, Thalassa deu um passo à frente e fechou a porta atrás de si.
— Está chateado comigo?
O cenho dele se aprofundou.
— O quê? Claro que não. — Respondeu, parecendo genuinamente confuso. — Por que eu estaria chateado com você?
— Então por que não quer falar comigo? — Insistiu ela, com a voz tremendo levemente. — Por que não consegue me dizer o que sente? Por que me impede de chegar até você, Kris? Até agora, eu não te vi demonstrar dor nenhuma.
Kris a fitou por um instante, incrédulo, antes de balançar a cabeça.
— É disso que se trata? — Perguntou, com um tom de descrença. — Você acha que estou chateado com você porque eu não... Chorei?
O coração de Thalassa afundou e ela assentiu de forma hesitante.
— Kris... Você acabou de perder a sua mãe.
A risada dele soou fria e sem humor.
— Eu perdi minha mãe há muito tempo. — Respondeu secamente. — A mulher que morreu naquele incêndio não era minha mãe, era uma completa desconhecida. É por isso que eu não estou de luto. Para sentir a dor da perda, é preciso amar primeiro.
As palavras dele partiram o coração de Thalassa, mas ela se recusou a recuar. Então, aproximando-se, envolveu o rosto dele entre as mãos.
— Kris… — Sussurrou com ternura e firmeza. — Eu entendo por que está dizendo isso, mas, independentemente do que tenha acontecido, Linda ainda era sua mãe, e você a amava.
A mandíbula dele se contraiu e o olhar se acendeu com uma intensidade que fez um arrepio percorrer a espinha dela.
— Eu não a amava. — A voz dele saiu tensa.
— Amava, sim. — Insistiu ela, num tom suave.
— Eu não amava! — Gritou, dando um passo para trás e afastando-se do toque dela. — Me diz, como eu poderia amar uma mulher como aquela? Ela armou para que te violentassem na véspera do nosso casamento só para acabar com a gente! Mandou te prender por desvio de dinheiro, Thalassa! Fez você apanhar até perder o nosso filho! Matou uma mulher inocente só porque ela tentou agir corretamente! E tentou te queimar viva! Como acha que eu conseguiria amar alguém assim?
Apesar da voz alterada dele, Thalassa se manteve firme. Não recuou, não interrompeu, apenas esperou, e, quando a voz dele finalmente se quebrou e o peito arfou em respirações pesadas, ela se aproximou mais.
— Kris… — Murmurou. — Você não precisa fingir que nada disso te afeta. Não comigo.

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