Natália acompanhou Henrique para fora do Cartório.
O sol da tarde em Porto Real brilhava num branco ofuscante. O ar pulsava com ondas de calor úmido, rompendo completamente com o ambiente frio e climatizado de dentro, como se fossem dois mundos distintos.
O Maybach preto estava estacionado em silêncio sob a sombra das árvores à beira da rua.
Henrique abriu a porta traseira e virou-se de lado, esperando por ela.
A luz do sol vazava pelas frestas das folhas, projetando sombras miúdas sobre suas feições. Parado ali, ele lembrava uma espada embainhada, contido, mas que dava a impressão de que poderia ser sacada e ferir a qualquer instante.
Ao curvar-se para entrar no carro, Natália pôde sentir o olhar dele pousado sobre ela.
Não era um olhar pesado, mas tinha uma presença imensa.
— Vamos para a velha mansão primeiro. Minha avó está esperando para vê-la.
Henrique entrou logo em seguida, e o som surdo da porta se fechando isolou a maior parte do calor escaldante de fora.
Natália assentiu. Estava prestes a dizer algo quando o celular em sua bolsa vibrou abruptamente.
Era um número desconhecido de Vila do Norte.
Ela parou o movimento, sentindo um baque no peito, como um mau presságio que escolhera justamente aquele instante delicado para aparecer.
Henrique lançou-lhe um olhar indiferente.
Sem pensar duas vezes, Natália rejeitou a ligação.
Mas, poucos segundos depois, o número voltou a ligar.
Natália mordeu os lábios e deslizou o dedo na tela para atender.
— Natália Rocha!
Assim que a chamada conectou, a voz irritada de Felipe Almeida irrompeu do outro lado, carregada com a raiva reprimida de vários dias. — Por que você não voltou para casa depois de ter alta do hospital? Para onde você fugiu? Tem ideia de quantas vezes eu te liguei...
O estômago de Natália despencou, e ela olhou por instinto para o homem ao seu lado.
Henrique havia desviado o olhar e agora brincava com o isqueiro na mão, de olhos baixos.
Ele não estava fazendo absolutamente nada, apenas sentado em silêncio, sem sequer olhar para ela. Contudo, essa presença inabalável a fez sentir uma pressão sem motivo aparente.
Ela imediatamente afastou o celular do rosto e abaixou a voz: — O que você quer?
— Como assim, o que eu quero? Natália Rocha, seus chiliques têm que ter um limite! — A voz de Felipe subiu de tom. — O que aconteceu naquele dia foi culpa minha. Mas você bateu na Juliana, e meus pais estão fazendo um inferno nesses últimos dias, exigindo que você peça desculpas a ela... Mas esquece, não vamos falar disso agora. Onde você está? Eu vou te buscar, precisamos conversar direito.
Pedir que ela pedisse desculpas a Juliana Almeida...

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