Caleb
Sabe quando o tempo simplesmente para? Foi assim que eu me senti nas últimas três horas. Três horas inteiras sentado nessa poltrona dura da recepção, com o coração na garganta e a cabeça girando como um liquidificador sem tampa.
A imagem da Pamela gritando de dor ainda tava presa na minha cabeça. Aquilo me quebrou de um jeito que eu nem sei explicar. Ela sempre foi forte, sempre tentando mostrar que dava conta de tudo, mas naquele momento… ela parecia tão vulnerável. Tão frágil.
O médico tinha dito que iam fazer uma cesariana de emergência, e desde que ele sumiu por aquela porta eu perdi a noção do tempo. Só via gente passando com jaleco, enfermeira empurrando maca, e nenhum deles trazia notícia dela.
Era como estar preso num pesadelo acordado.
Olhei pro relógio mais uma vez: 3h47 da manhã. Já fazia três horas que eu tava ali. As mãos suadas, o pé batendo no chão sem parar.
Minha mãe, Vitória, tava sentada do meu lado, tentando ser a calma que eu precisava, mas eu via que ela também tava nervosa. O rosto dela denunciava.
Flávia e Valentina estavam um pouco mais afastadas, cochichando entre si. Eu nunca pensei que veria as duas ali, preocupadas de verdade com a Pamela, mas estavam. E por incrível que pareça, aquilo me trouxe um mínimo de alívio.
Respirei fundo e passei as mãos no cabelo, sentindo a tensão latejar na cabeça.
— Filho, toma um pouco de água — minha mãe disse, me entregando o copo.
Peguei, mas nem consegui beber. O nó na garganta não deixava.
Foi aí que uma coisa me atingiu em cheio.
— Mãe… — falei, encarando o chão. — A mala da maternidade.
— O quê?
— A mala da Pamela, mãe. Ela não tá pronta. Ela sempre dizia que ia arrumar quando chegasse nos oito meses, mas… ela só tá com vinte e nove semanas. — Soltei um riso nervoso. — Eu devia ter feito isso antes.
Vi minha mãe ficar branca na hora.
— Meu Deus, é mesmo. Precisamos resolver isso.
— Eu não posso sair daqui. — Me virei pra ela, desesperado. — Eu não posso ir embora enquanto ela tá lá dentro.
Foi quando Flávia se levantou, rápido.
— Fica aqui, Caleb — ela disse com firmeza, e me olhou com aquele jeito decidido que só mãe tem. — A Pamela precisa de você aqui quando ela acordar. Eu e sua mãe vamos até a casa de vocês preparar a mala, tá bem?
— Eu… — olhei pras duas, sem saber o que dizer. — Obrigado.
Flávia assentiu, já puxando Vitória pelo braço.
— Vamos rápido, Vitória. Pega tudo que ela pode precisar: roupas, documentos, aquelas coisinhas de bebê…
As duas saíram apressadas, e eu fiquei ali, parado, olhando a porta do centro cirúrgico.
A cada minuto que passava eu sentia o peito mais apertado.
Eu nunca fui um cara religioso, mas quando você tá prestes a perder o que mais ama, você reza até pra o teto se for preciso.
Levantei, sem pensar muito, e comecei a andar pelos corredores do hospital até encontrar a pequena capela. Era simples, silenciosa, com um cheiro de vela e flor murcha.
Entrei e sentei no último banco.
Olhei pro crucifixo na parede e respirei fundo.
— Eu não sei rezar direito — falei, baixinho. — Mas, se o Senhor tá ouvindo, por favor… cuida dela. Cuida da Pamela e dos nossos bebês. Eu não sei o que fazer se algo acontecer com eles.
A voz falhou no meio da frase.
— Ela é tudo pra mim. Tudo. E eu… eu nem sei o que seria da minha vida sem ela.
Fechei os olhos, tentando conter as lágrimas.
Flashbacks começaram a vir: o sorriso dela quando descobrimos a gravidez, o jeito dela colocar minha mão na barriga e rir quando os bebês chutavam.
As brigas bobas por causa dos desejos malucos dela. A forma como ela me chamava de “drama king” quando eu surtava demais.
Tudo isso passava como um filme.
E agora ela tava lá, em uma sala de cirurgia, e eu sem poder fazer nada.
— Me dá força, Deus — murmurei. — Por favor. Só isso.
Fiquei ali um bom tempo, só respirando e tentando não desabar.
Quando voltei pra recepção, Valentina ainda tava lá, andando de um lado pro outro.
— Alguma notícia? — perguntei.
Ela balançou a cabeça. — Ainda nada.
— Droga…
Me sentei de novo. O silêncio era sufocante.
Comecei a pensar em tudo: e se os bebês nascessem e precisassem ficar na incubadora? E se ela perdesse muito sangue? E se ela não acordasse?
A mente é cruel nessas horas.
Tentei afastar os pensamentos, mas quanto mais eu tentava, mais eles vinham.
Uns minutos depois, o médico apareceu no corredor. Meu coração disparou.
Me levantei tão rápido que quase derrubei a cadeira.
— Doutor! — chamei, apressado. — E aí? Como ela tá?
Ele levantou as mãos, pedindo calma.

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