O olhar de surpresa cruzou os rostos de Isabela e Jorge ao mesmo tempo. Como se obedecessem a um comando invisível, suas mãos se separaram num movimento desajeitado e repentino.
Isabela escondeu os dedos dentro das mangas do casaco, sentindo ainda o calor do toque dele pulsando em sua pele como uma lembrança teimosa.
Jorge, por sua vez, levou as mãos para trás do corpo, as entrelaçando levemente.
— Parece que a primavera já está batendo à porta. — Comentou ele, quebrando o silêncio.
Isabela desviou o olhar para o rio que corria tranquilo à distância.
— É verdade. Até o vento parece ter perdido um pouco da sua frieza. — Erguendo o rosto para o firmamento pontilhado de luz, deixou escapar um suspiro profundo antes de filosofar. — Passamos tanto tempo tentando sobreviver que esquecemos de simplesmente viver, não é mesmo?
Se virando para encará-lo com um brilho renovado nos olhos, exclamou:
— Olhe só, Dr. Jorge! Quantas estrelas!
Jorge elevou o olhar para o céu.
Aquela imensidão escura e silenciosa abrigava milhares de pontos luminosos que cintilavam como confidentes de segredos cósmicos, revelando a grandiosidade do universo em sua simplicidade mais pura.
Uma brisa suave atravessou o espaço entre eles, fazendo dançar alguns fios rebeldes do cabelo dela. Sob aquela luz noturna, o perfil de Isabela ganhava contornos ainda mais definidos, quase etéreos.
Jorge a observou discretamente.
A Isabela desperta era um universo completamente diferente da Isabela adormecida. Acordada, ela transbordava determinação, emanando uma força interior inconfundível. E às vezes, carregava nas palavras um tom cortante, afiado como lâmina.
Era justamente essa dualidade que a tornava ainda mais fascinante aos seus olhos.
De repente, o rosto dela se iluminou como se tivesse sido atingido por um raio de compreensão súbita.
— Já sei! — Ela exclamou, quase saltando.
— Sabe o quê? — Jorge arqueou as sobrancelhas, intrigado.
— Aquilo que você me disse sobre não ficar presa num círculo fechado... — Disparou ela, as palavras se atropelando em sua empolgação. — Na hora não consegui entender completamente, mas agora tudo faz sentido! E se aquele homem for inocente? E se ele caiu numa armadilha bem arquitetada? Pense bem, aquela mulher recusou o dinheiro, mas não por alguma superioridade moral. Talvez ela já tivesse recebido uma quantia muito maior de outra pessoa. E se ela não passou de uma simples peça no tabuleiro de alguém? O verdadeiro mentor disso tudo pode ser completamente diferente!
Em questão de segundos, ela havia quebrado completamente o padrão convencional de raciocínio.
Um sorriso satisfeito brotou nos lábios de Jorge ao vê-la tão animada.
— Finalmente sua mente se abriu para novas possibilidades. — Comentou ele, com um toque de orgulho na voz. — Mas não acha que eu mereço um agradecimento? Ajudei com o caso, bebi com você e agora estou aqui admirando estrelas ao seu lado.
Isabela deixou escapar uma risada leve.
— Tem toda razão, obrigada por...
— Guarde o agradecimento. — Interrompeu ele, sem desviar o olhar do rio onde as luzes da cidade dançavam sobre a água escura. — Já está ficando tarde. Melhor voltarmos.


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