Isabela sentiu um frio na barriga. A expressão de Jorge a fez questionar se havia feito alguma palhaçada enquanto dormia. Ela apertou o copo de café com tanta força que o papel se amassou, e o café respingou por toda sua roupa.
Quando percebeu, deu um pulo.
“Que vergonha. O que tá acontecendo comigo?”, pensou, mordendo o lábio.
— Se vira. Vamos ter que pernoitar aqui. — Jorge falou secamente.
Virou as costas e entrou no carro com movimentos bruscos.
Isabela ficou parada no estacionamento, esfregando a mancha de café na blusa, mas só piorou, deixando os dedos melados. O motor do carro roncou, e a janela do motorista desceu. Uma embalagem de lenços voou em sua direção.
— Obrigada. — Ela murmurou, evitando o olhar dele. Passou minuciosamente o lenço entre os dedos, embora a textura pegajosa insistisse em permanecer.
Depois de se recompor, entrou no carro e jogou o pacote no banco de trás. Jorge acelerou sem cerimônia, engolindo o asfalto com o veículo.
— Para onde estamos indo? — Ela perguntou, quebrando o silêncio.
— Jantar. Depois, hotel. — A voz dele era plana, sem apresentar nenhuma emoção.
— Ok. — Isabela virou o rosto para a paisagem noturna que dançava além do vidro. Postes de luz riscavam seu campo de visão como estrelas cadentes, enquanto a ansiedade a enrolava por dentro.
O restaurante era um boteco chique de paredes de tijolo à vista.
Eles se sentaram perto da janela, onde luzes douradas pintavam sombras nos pratos. Jorge pediu uma sequência de petiscos sem consultá-la. Ela ficou quieta, observando garçons equilibrando bandejas.
No meio do clicar de talheres, ele quebrou o silêncio entre eles:
— Esse caso que você está tocando... Dá pra ganhar?
— Com certeza. — Ela respondeu, erguendo o queixo.
Um canto da boca de Jorge subiu milímetros.
— Se precisar de ajuda, me avise.
— O senhor já fez demais. — Ela disse, os dedos contraindo sob a mesa. Sabia que aquilo era uma corda bamba, cair ou crescer dependia do equilíbrio.
Ele tomou um gole de água antes de perguntar:
— Aquilo que sua mãe disse naquela noite... — Ela começou, mastigando as palavras como se mascasse um chiclete. — Sobre você me pedir em casamento, foi ideia dela ou sua?
Sandro caminhava como um robô e respondeu com frieza:
— Acabei de sair de um divórcio, Clara.
Ele estava em Porto Maravilha para o Congresso Jurídico, evento que reunia os maiores nomes do direito continental. Pela manhã, apenas cumpria o protocolo, o verdadeiro jogo aconteceria no coquetel noturno. Porém, Clara, farejando oportunidades como sempre, insistiu em acompanhá-lo. Cedendo às exigências de Maria, Sandro tinha que arrastar aquela sombra grudenta.
Clara murchou como um balão furado, o brilho dos olhos se apagando. Não conseguia decifrar o que Sandro sentia por ela. Enquanto ela pensava em paixão, ele a tratava com a frieza de um inverno gaúcho, mas nos raros momentos em que ousava beijá-lo, ele não a empurrava. Talvez fosse só o divórcio recente.
“Tudo bem, eu espero. Sou boa nisso.”, pensou consigo mesma.
— Quero comprar um presente para sua mãe. — Clara anunciou, o agarrando pelo cotovelo e arrastando Sandro para dentro de uma joalheria.
Ele se deixou levar como um manequim, sem entusiasmo nem resistência. Na verdade, Clara era um raio de luz em meio a solidão, assim como Isabela foi antes. Maria pressionava, sim, mas havia algo reconfortante na forma como ela preenchia os vazios com conversas borbulhantes. Pelo menos assim, os silêncios não doíam tanto.
— Ela prefere diamantes ou esmeraldas? — Perguntou Clara, tentando quebrar o silêncio.

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