— Ah!
Um grito lancinante e agudo ecoou.
Apanhada de surpresa por aquele chute implacável, Viviane Lacerda foi lançada para frente em um tombo humilhante; se não tivesse instintivamente apoiado as mãos no chão, teria caído de cara diante de todos.
Laís Monteiro recolheu a perna sem pressa. Seu olhar era gélido, e a aura intimidadora que exalava fez com que as socialites ao redor recuassem meio passo por puro instinto.
No rosto meticulosamente cuidado de Viviane, agora havia a marca vermelha e nítida de um salto de sapato. A pele afundara no local do impacto, criando uma imagem que era, ao mesmo tempo, cômica e assustadora.
Ela cobriu o rosto, mortificada. Mas, no instante em que ia se virar para revidar, uma figura se interpôs na frente de Laís.
Era Lídia Lima.
O olhar dela era afiado como uma lâmina, carregado daquela ferocidade de quem já enfrentou o submundo. Ela encarou Viviane fixamente; era uma agressividade tão enraizada nos ossos que Viviane não conseguiu sequer sustentar o olhar, engolindo em seco os xingamentos que já estavam na ponta da língua.
— Agressão! Isso é um absurdo!
Patrícia Lacerda levou alguns segundos para sair do choque. Ela começou a berrar, histérica, tentando mascarar o pavor com o volume da voz:
— Socorro! Estão causando tumulto em público! Seguranças! Prendam todas elas agora mesmo!
Ao comando de Patrícia, alguns guarda-costas invadiram o local rapidamente e estavam prestes a avançar para detê-las.
— Quero ver quem tem coragem!
O grito de Clara Campos explodiu como um trovão, fazendo os tímpanos de todos os presentes zumbirem.
Ela deu um passo à frente, e a sua imponência cresceu de forma avassaladora, suprimindo completamente a imagem da professora doce que sempre aparentou ser.
— Se alguém ousar nos impedir hoje, estará declarando guerra contra toda a família Andrade! Se me tirarem do sério, eu garanto que vocês não terão mais onde cair mortos em Marbella!
Seu olhar ardia em chamas. Ela varreu o salão com os olhos frios e proferiu cada palavra com firmeza inabalável:
— Estão achando que eu sou inofensiva só porque não costumo rosnar? Façam o favor de avaliar muito bem a posição da família Andrade em Marbella, minhas queridas damas da alta sociedade!
— Hoje, eu vim acertar as contas de vez com as famílias Vasconcelos e Ramos! E quem for esperto, que escolha o seu lado agora mesmo! Ou ficam com os Vasconcelos e os Ramos, ou ficam do nosso lado, com a família Andrade. Estou dando a chance de escolherem!
Clara Campos explodira de vez.
Fosse pela tradição, pelo poder ou pela influência, a família Andrade era, sem sombra de dúvida, quem mandava em Marbella.
Antes, a família Andrade mantinha-se discreta, o que permitia que as pessoas bajulassem os Vasconcelos. Mas, com Clara colocando as cartas na mesa de forma tão direta, quem seria idiota o suficiente para fingir que não entendeu?
A situação ficou clara em um instante.
As madames que antes observavam, indecisas, farejaram a oportunidade como gatos sentindo o cheiro de peixe e rapidamente tomaram a decisão mais vantajosa.
— E ainda precisa escolher?
No meio da multidão, a Senhora Barros — cujo marido possuía um certo poder — foi a primeira a se manifestar. Ela lançou um olhar fulminante para os guarda-costas e repreendeu com rispidez:
— A esposa do diretor Andrade já deu a ordem. Vocês, seus imbecis, não vão dar o fora daqui? Estão querendo arruinar a todos nós?
Com a iniciativa da Senhora Barros, as demais dondocas logo viraram a casaca, agrupando-se rapidamente atrás de Clara Campos.
O que deveria ser o território das irmãs Lacerda se transformou, num piscar de olhos, no domínio de Clara.
Patrícia e Viviane viram que mais da metade do salão já havia debandado para o lado de Clara. Apenas a Senhora Alves e a Senhora Morais permaneceram firmes ao lado delas, enquanto um pequeno grupo de mulheres continuava no meio, tremendo de medo e tentando manter a neutralidade. As irmãs ficaram verdes de raiva.

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