Laís ficou do lado de fora esperando um tempo, mas como não saíam, decidiu voltar.
No momento em que espiou pela porta, percebeu um certo brilho profundo nos olhos de Jorge e de Lídia, mas não fazia ideia do que os dois estavam falando.
— Já estamos indo.
Ambos responderam apressadamente.
Logo, os três saíram juntos rumo a Suzano.
Ao chegarem ao hospital, os pais de Jorge, Daniel Andrade e Clara Campos, já estavam no portão, empurrando o carrinho com Aline e os esperando.
Depois de alguns dias sem se verem, Aline estava visivelmente mais gordinha. Seu rosto estava mais rosado, e os grandes olhos brilhavam, conferindo-lhe uma aparência adorável e esperta.
Os pais de Jorge fizeram questão de comprar um carrinho para ela. Mostraram muito carinho forrando o interior com um tapete macio e cor-de-rosa, uma manta fina também rosa, além de pendurarem vários brinquedos ao redor do carrinho.
Além disso, Clara Campos comprou para a menina cerca de dez conjuntos de roupas e sapatinhos adoráveis de uma vez só, todos de marcas caras e luxuosas.
Ver esses detalhes encheu o coração de Laís de gratidão.
A comparação entre as duas famílias só destacava a frieza e a crueldade da família de Felipe Vasconcelos.
Que tipo de valores alguém precisava ter para ser tão machista ao ponto de dar tanto valor a um menino em detrimento de uma menina? Que tipo de falta de educação levava a chamar uma criança de azarada e bastarda?
Aline era a pessoa mais inocente em todo o mundo.
Foram seus pais que a trouxeram a esse mundo.
Sempre que pensava em como tinha dado tudo de si e, mesmo assim, não tinha conseguido proteger sua filha por completo, fazendo com que sua vida tivesse uma lacuna tão grande, o coração de Laís doía como se fosse perfurado.
Felizmente, elas eram sortudas por terem cruzado com a família de Jorge, pessoas tão bondosas e carinhosas.
Observar Clara Campos, Daniel Andrade e Lídia Lima ao redor de Aline, brincando com a menina e elogiando como ela parecia um anjo... fez com que as defesas de Laís quase se quebrassem.
Como não queria chorar, fingiu tranquilidade e disse:
— Mãe, Tio Daniel, Tia Clara, nós dois vamos indo primeiro para a Cúpula de Arquitetura.
Tinha passado tempo demais naquela posição em que apenas era criticada, desprezada e julgada.
Até chegar ao ponto em que quase esqueceu como era ser validada e valorizada.
Laís olhou fixamente para Jorge, sua voz engasgando ligeiramente:
— Obrigada. Você é a primeira pessoa em toda a minha vida a dizer algo assim para mim.
Laís fungou e continuou: — Nem a minha mãe jamais me falou isso, mas não a culpo. Nos primeiros anos, ela estava muito cansada e ocupada.
Involuntariamente, Laís abriu o seu coração e tomou a iniciativa de falar do passado:
— Se consegui chegar até aqui, foi apenas reprimindo tudo dentro de mim e lutando em silêncio contra o resto do mundo.
— Quando eu era criança, uma professora me disse que eu era muito tímida para cantar no palco. Fui para casa e ensaiei até não aguentar mais. Depois, me inscrevi em um programa de canto no Canal Infantil de Marbella, apareci na TV, ganhei um prêmio e ainda dei um belo tapa na cara daquela professora, provando o seu erro.
— No ensino fundamental, eu ia mal em matemática. O professor disse que eu só conseguiria ir para uma escola técnica. Mas eu não aceitei aquilo. Não tinha dinheiro para pagar aulas de reforço, então estudei sozinha como uma louca e perguntava o que não sabia. No final, acabei tirando a maior nota da classe de matemática no exame de admissão para o ensino médio e deixei aquele professor em choque também.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Segunda Vida da Senhora Laís