Deste lado da linha telefônica.
Felipe segurou o celular por um bom tempo, com as sobrancelhas grossas unidas em uma linha reta. Ele pausou por vários segundos até que finalmente soltou um leve e afirmativo resmungo.
Laís parecia realmente não estar com tanta pressa de se divorciar agora.
Antes, ela lutava desesperadamente para forçá-lo a assinar o divórcio. Mas agora que ele havia concordado com todas as suas exigências, ela agia com completa ausência de pressa. Ela nem sequer havia lhe perguntado quando exatamente iriam formalizar os papéis, sem mostrar qualquer sinal daquela urgência opressora do passado.
Após desligar o telefone, Felipe sentou-se na sua espaçosa cadeira executiva; ficou em silêncio por um longo período e, em seguida, tirou da gaveta um telefone secundário que quase não usava e ligou para Laís.
A chamada logo foi atendida, e a voz invariavelmente fria de Laís ecoou pela linha:
— Alô, quem é?
— Sou eu.
O tom baixo e magnético de Felipe era altamente reconhecível; Laís percebeu de imediato:
— Ah, o que houve?
— Quando você tiver um tempo livre, vamos ao Cartório de Registro Civil.
A voz de Felipe soou um tanto rouca e profunda ao extremo.
Naquele momento, Laís havia acabado de voltar do hospital para casa. Ela estava no quarto de bebê brincando com a Aline.
Aline já conseguia sentar-se sozinha e com firmeza sobre o tapete de engatinhar; segurando duas bolas macias e coloridas nas mãozinhas, balançava os bracinhos alegremente e soltava barulhinhos contínuos.
Laís apenas fez um gesto com a mão, e Aline desatou em risadas gostosas.
O riso peculiar e melodioso do bebê viajou através do telefone até os ouvidos de Felipe.
Ao ouvir a filha rindo de forma tão contente, o coração de Felipe foi duramente fisgado, e um gosto indescritível inundou seu peito instantaneamente.
— Aline, vem cá, eu brinco com você e deixo sua mãe falar ao telefone.
A voz dócil e afetuosa de Jorge soou repentinamente na ligação, o que fez o interior de Felipe — já dominado pela repressão —, afundar ainda mais naquele poço de frustração num piscar de olhos.
Em contrapartida, as inúmeras ocorrências envolvendo ele mesmo com Sofia e Zoraida foram testemunhadas por Laís pelas ironias do destino, e ela ainda detinha provas irrefutáveis.
A proximidade dela com Jorge era apenas um achismo que brotava da paranoia dele; enquanto ela, do outro lado, possuía o machado em mãos contra ele. Caso eles levassem esse assunto aos tribunais, muito provavelmente ele perderia qualquer batalha.
Felipe pensou em tudo aquilo e o seu íntimo tornou-se infinitamente mais sufocado.
Ele descobriu com assustador desespero que todos os aspectos de sua vida agora encontravam-se acorrentados e dominados por Laís.
Laís poderia agir ao seu bel-prazer na vida dele, e ele sequer tinha um mísero recurso de defesa contra ela.
Laís podia influenciar a sua carreira, criar armadilhas para afundar os familiares dele, reivindicar a filha para si, ditando que ele não a veria mais, exigir todas as condições impiedosas para o divórcio e até desfrutar livremente da escolha de relacionar-se com quem bem quisesse... E ele, por sua vez, encontrava-se totalmente de mãos atadas.
Chegado este momento e engolindo um baque atrás do outro, Felipe não tinha alternativa além de aceitar as amarras do seu destino.
Porém, ele mantinha um vulcão de ira encubado no estômago.
Se agora ele procurava com tal voracidade concluir as papeladas do divórcio com Laís, não se tratava unicamente do desejo de abocanhar aquele projeto com o Grupo Vargas. Havia um fator ainda muito mais profundo: o fato de que em muito breve ele conseguiria, através de seu cunhado, Walter Barros, obter exatos 5 bilhões de reais em investimento provenientes daquele cliente misterioso do País A.

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