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A Virgem e o CEO Em Coma - Casamento Forçado romance Capítulo 1

Edward Knoefel

A imagem no monitor do circuito de segurança era implacavelmente clara: eu estava bem atrás de Hunter, conseguia ver cada pessoa que entrava no corredor que dava acesso ao subsolo onde ficava a última morgue. O ar cheirava a limpeza e aços frios; as lâmpadas fluorescentes estouravam na visão, projetando sombras cortantes no piso. Tudo parecia clínico e absurdo ao mesmo tempo.

Ela entrou.

O frouxo estava desacordado eu o tinha perfurado quatro vezes; jazia letárgico, sem reação. Pensei, com uma mistura de escárnio e previsibilidade, que seria engraçado, quando ela chegasse, dar um balde de água na cara dele; queria que ele me visse com ela, que entendesse que nada mais lhe pertencia. Tirei a arma que escondia na parte de trás da calça, saí da morgue e apontei para Maitê, que vinha no fim do corredor com passos rápidos.

Ela veio apressada, sem demonstrar medo diante da arma apontada. A primeira pergunta que fez foi direta:

— Cadê o Hunter?

Sorri, um sorriso que não chegava aos olhos.

— Thu, thu, thu, thu… Faz tanto tempo que não nos vemos — provoquei. — E essa é a primeira pergunta que você me faz?

— Eu vou fazer tudo o que você quiser, eu prometo. Mas preciso saber se o Hunter está bem.

— “Tudo”, gostei da palavra. — Mordi o lábio. — Nós vamos fazer tudo na frente dele.

Agarrei o braço dela com força e a puxei para dentro da sala. Quando percebeu o sangue escorrendo e viu Hunter com a cabeça pendida para a frente, ela achou que ele estivesse morto.

— O que você fez? — perguntou, tentando se soltar para alcançá-lo.

— Ele está vivo, por enquanto. Mas, se ninguém o atender logo, vai morrer.

— Então perfeito. Vamos sair daqui nós dois agora; depois a gente chama alguém e tira o Hunter daqui para ser atendido. Eu não vou fugir, juro. — A voz dela tremia, mas mantinha uma determinação cortante.

— Não. Sem telefonemas. Deixa ele morrer aí. — Respondi seco.

— Se você fizer isso — implorou ela, apertando o corpo contra o meu — eu prometo que vou ficar do seu lado, sem reclamar, e fazer tudo que você quiser. Mas não me impeça de pedir ajuda para ele. Não me negue isso.

Fiquei em dúvida por um segundo. Eu a amava — ou algo que se parecia com amor, uma distorção venenosa — e por uma fração de segundo quase cedi.

— Um beijo de amor — falei. — Dependendo da sua performance, eu decido se acredito em você.

Ela não pensou duas vezes. Virou-se para mim, agarrou minha mão e me puxou para um beijo violento. A boca dela era quente, úmida; o toque incendiou meu corpo inteiro. Ela roçava a língua no céu da minha boca, arranhava minhas costas com as unhas por cima do tecido. E eu afrouxei a postura me inebriado da sua pele, da sua saliva. Por um instante a realidade se fechou naquele contato: era a vida que eu desejava, o corpo dela, a sensação de tê-la de volta. Todos os calculismos, todo o ódio e o desejo embolados num só gesto.

Estava entregue a ela, de olhos fechados feito um otário, só me dei conta do que ela fez quando senti meu corpo convulsionar.

(...)

Maitê Moreli

Asco um grande e repulsivo asco, foi o que senti a ser forçada a beijar Edward, mas eu precisava para enfraquece-lo.

Porém Edward foi astuto; com um movimento curto e calculado deslizou a mão pelo canto do móvel e encontrou o frio do cano. O clique da segurança sendo retirada foi como um martelo batendo dentro da minha cabeça, todo o restante do mundo sumiu. Hunter gritou, lançou-se de novo, tentou imobilizar o braço, mas a ferida no abdômen drenava suas forças. Os dois rolavam outra vez; poeira e pequenas coisas voavam em torno deles.

Em meio à confusão, o disparo soou — seco, brutal — e tudo se congelou por um instante.

Edward ergueu-se, a arma ainda fumegante na mão. Hunter desabou no chão; o corpo soltou um suspiro profundo que não trouxe vida de volta. Corri até ele, joguei-o de lado, senti o calor que se dissipava; os olhos dele, antes tão vivos, foram ficando menores até se fecharem de vez. Segurei seu rosto entre as mãos e ouvi o silêncio que se seguiu: um silêncio mais denso do que qualquer som.

O grito que saiu de mim foi um monstruoso combo de dor e fúria. Atravessei a do necrotério como um tornado, e as palavras que despejei sobre Edward foram afiadas, cortando o ar:

— Você é um monstro! — berrei, a voz rasgando. — Repulsivo, invejoso! Pode me matar, me sequestrar, fazer o que quiser, mas você nunca vai ser ele. Nunca. O amor que eu sinto por Hunter não é coisa que você possa roubar. Tenho nojo de você. Não te amei. Não te amo. Você é só uma barata rastejante que eu quero esquecer.

As frases saíam em rajadas curtas, cada uma uma lâmina.

Edward ficou imóvel por um instante. A fúria que o dominara parecia rachar; a máscara de raiva começou a ceder. Primeiro veio um descompasso no olhar, depois as sobrancelhas franziram; um tremor percorreu seu rosto. Lágrimas começaram a escorrer, tímidas, depois mais intensas. Aquelas lágrimas destoavam de tudo que ele havia sido até ali: não cabiam na face endurecida que cometera a violência. Para mim, eram apenas mais um ultraje.

— Lágrimas? — cuspi com ironia. — Você não tem sentimentos. Está vazio. Oco. Não me engana seu verme.

Edward engoliu em seco, como se palavras já preparadas se dissolvessem na garganta. A voz saiu baixa, sem firmeza:

— Eu… eu amo você. — sussurrou — vou te provar.

O súbito confessionário soou grotesco contra o cheiro de pólvora e o corpo frio de Hunter. Ainda assim, por trás daquela afirmação havia uma mistura de delírio e dor real. Edward ergueu a arma com mãos trêmulas; havia raiva e arrependimento, tudo misturado numa expressão crua. Ele pousou a ponta do cano contra a própria cabeça, como se quisesse atravessar a fronteira entre o que sentia e o que havia feito, e apertou o gatilho.

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