Gleison ouviu Florença recitar o cardápio, e, ao lembrar da última vez que a vira, tão magra e frágil antes de morrer, deixou transparecer em seu olhar uma dor e compaixão que não conseguiu esconder.
“Florença, cuide-se e alimente-se direito.”
Florença respondeu: “?”
Gleison estava... preocupado com ela?
Ela ficou confusa por alguns segundos, mas imediatamente disse: “Sim, eu cuidarei, pode deixar.”
Por algum motivo, naquele breve instante, Florença sentiu, quase imperceptivelmente, uma tensão e compaixão na voz grave daquele homem.
Deveria ser... apenas impressão dela.
Eles mal se conheciam, por que Gleison estaria tenso? Por que sentiria compaixão?
“Vá comer, amanhã te ligo de novo.” Gleison acrescentou.
Florença estava prestes a responder “tá bom”, quando, de repente, arregalou os olhos: “O quê? Vai ligar amanhã também?”
“Sim, todos os dias farei questão de te ligar.”
Florença disse: “?”
Fazer questão?
Quem disse que isso era regra?
“Não pode?” Gleison pareceu perceber certa relutância nela, e sua voz ficou ainda mais grave. “Você não quer falar comigo?”
Florença apressou-se em responder: “Imagina, claro que pode.”
Com sua postura tão dominante, era sempre do jeito dele.
Na vida passada, Florença mal tivera contato com Gleison, mas ouvira dizer que ele era implacável e guardava rancor.
Nem que fossem dez famílias Braga, não seriam páreo para Gleison.
Ela ainda nem havia resolvido a situação com a família Braga, não queria, de forma alguma, atrair a atenção desse “demônio” logo ao voltar.
“Então, falamos amanhã.”
Florença fingiu entusiasmo: “Claro, combinado.”
“Tu... tu... tu...”
A ligação foi encerrada.
Florença olhou para Iago, sem entender: “O que isso tem a ver com você?”
Iago ficou sem palavras.
Por algum motivo, ao encarar o olhar frio e quase indiferente de Florença, sentiu uma sensação incômoda, difícil de descrever.
Era como aquela tarde no hospital, quando ela simplesmente o ignorou.
Iago franziu a testa: “Por que comeu meu almoço sem pedir?”
Florença piscou algumas vezes: “E o que mais eu faria? Se não comesse, ia jogar fora. E tudo que coloco nas suas mãos, você nunca aceita mesmo.”
“Então por que disse para a Sara que ia me trazer o almoço?”
Iago nem sabia ao certo se sentia raiva ou frustração.
De fato, ele não aceitaria nada que Florença lhe desse, mas, independentemente disso, ela deveria ao menos ter levado, não simplesmente decidir que ele não aceitaria.
Além disso, ela não estava tentando agradá-lo?
“Quem disse que eu queria te trazer almoço?” Florença piscou, surpresa. “Nem passou pela minha cabeça.”

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