Renato nunca foi de filtrar o que pensava.
O que vinha à cabeça, saía pela boca.
— Pra mim é simples. — Disparou. — Se você me obrigar a escolher, eu acredito mais que a Lílian seria capaz de matar a própria filha do que a Isabela fazer uma coisa dessas.
Assim que terminou a frase, o ar mudou.
O olhar de Cristiano, ainda turvo de álcool, ficou afiado.
Gelado.
Antônio quase se engasgou.
— Ei… Calma aí. Também não é assim.
Aquilo já estava passando do limite.
Isabela podia não ser esse tipo de pessoa.
Mas jogar a culpa direto na Lílian também era pesado demais.
Na cabeça de Antônio, nenhuma das duas seria capaz de matar uma criança.
Renato, porém, já estava inflamado.
— O quê? Eu tô mentindo? — Retrucou. — O que essa Lílian fez nesses seis meses não foi nojento o suficiente?
Ele nem percebeu o clima mudando.
— Eu acho totalmente possível ela usar a morte da criança pra jogar tudo nas costas da Isabela.
Antônio sentiu claramente a tensão que começava a emanar de Cristiano.
Fria.
Perigosa.
Tentou chamar Renato com o olhar. Fez um sinal discreto com a sobrancelha, quase pedindo que ele parasse.
Mas Renato já estava embalado demais.
— E quer saber? — Continuou, exaltado. — Aquela Vanessa então? Aquela mulher é fria. Não duvido nada que fosse capaz de sacrificar a própria neta pra proteger a filha.
Silêncio.
Pesado.
O som distante da água batendo na margem pareceu mais alto.
Naquele instante, mesmo bêbado, Cristiano não parecia fora de si.
Parecia à beira de explodir.
No fundo, Renato estava convicto.
Se tivesse que desconfiar de alguém, seria de Lílian.
Ou de Vanessa.
Mas nunca de Isabela.
Sentindo o ar ao redor de Cristiano ficar cada vez mais denso, Antônio levou a mão à testa.
A boca do Renato realmente não tinha freio.
Os olhos de Cristiano se fixaram nele, cortantes.
— O que exatamente ela fez?
— Hã?
A pergunta veio tão de repente que Renato levou um segundo para entender.
Cristiano repetiu, a voz baixa e afiada:
— O que a Lílian fez nesses seis meses pra você sentir tanto nojo assim?
A voz de Cristiano carregava uma frieza cortante, quase afiada demais para alguém que dizia estar apenas perguntando.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Abortos Repetidos e Nenhuma Piedade: Os Culpados Vão Pagar