Antes de desligar, Bruna ainda rosnou:
— Quando a gente voltar, eu espero que essa mulher já tenha sido posta pra fora da mansão. Melhor ainda: que tenha sumido de Nova Aurora. Eu não quero ver a cara dela nunca mais.
Cristiano não respondeu.
Pelo jeito como Bruna cuspia cada palavra, tomada de ódio, ele até pensou em falar alguma coisa. Mas não teve chance. Ela desligou na cara dele.
Aquilo já dizia tudo.
Naquele estado, Bruna não suportava nem ouvir o nome de Isabela.
Cristiano afastou o celular do ouvido e fechou os olhos por um instante. As têmporas latejavam.
Hotéis. Restaurantes.
Primeiro, ele tinha sido barrado na porta de um restaurante. Agora, Bruna, Taís e Lílian também não conseguiam nem se hospedar fora de casa.
Isabela tinha ido longe demais.
E aquele jeito de apertar o cerco até não sobrar saída para ninguém... Aquilo tinha a mão de Sérgio.
A notícia de que Bruna estava a caminho do aeroporto chegou a Isabela quase no mesmo instante.
Assim que Wallace terminou de contar, um sorriso discreto apareceu no rosto dela.
— Está tudo certo?
— Está, sim. — Respondeu ele, sem hesitar. — Não importa por onde tentem sair, elas não vão deixar Nova Aurora. Antes de escurecer, já terão voltado.
Isabela assentiu, satisfeita.
— Ótimo.
Ir embora de Nova Aurora?
Isso, ela realmente não tinha previsto.
Podia ter pensado em muita coisa, mas nunca imaginou que Bruna seria a primeira a querer fugir dali. Claro que Lílian e Taís também deviam ter pesado nessa decisão.
— E os pagamentos lá fora? — Perguntou Isabela. — Você cuidou disso também?
— Cuidei. O celular delas não vai passar em lugar nenhum.
A partir dali, se Bruna, Taís e Lílian quisessem comer alguma coisa na rua, só roubando.
E gente da família Pereira roubando comida no meio da cidade?
Aquilo, sim, viraria o grande assunto de Nova Aurora.
Isabela ficou ainda mais satisfeita.
Ela não queria apenas manter as três presas dentro da velha mansão.
Queria transformar a cidade inteira numa continuação da casa dos Pereira.
Mesmo que saíssem dali, continuariam sem saída.
Não conseguiriam ir embora.
E, se não podiam deixar a cidade, sair da mansão mudava o quê?
Não havia escapatória.
O telefone tocou.
Era Cristiano.
Assim que atendeu, Isabela ouviu a voz dele, dura, carregada de raiva:
— Foi você, não foi?
Agora ninguém da família Pereira conseguia comprar nada fora de casa. Nem ele. Nem Bruna. Nem Taís. Nem ninguém.
Era humilhante.
Tinham dinheiro, mas não conseguiam usar.
— O Sérgio te deu carta branca pra fazer isso tudo? — Ele continuou, cada vez mais ríspido. — Me diz logo onde você quer chegar. Você já levou as coisas ao ponto de fazer minha mãe querer sair de Nova Aurora. Ainda não está satisfeita?
Quanto mais ele falava, mais o tom pesava.
Naquele momento, a família Pereira inteira parecia motivo de deboche diante de Isabela.
Não.
Tinha sido ela quem reduzira a família inteira àquilo.
Isabela ergueu levemente a sobrancelha.
— Então, na sua opinião, tudo o que aconteceu nesses dias foi culpa minha?
— E não foi? — Cristiano rebateu, sem pensar duas vezes. — Me diz de uma vez o que você pretende fazer.
Nos últimos dois dias, Isabela tinha virado a mansão dos Pereira do avesso.
Ninguém em sã consciência suportaria aquilo.
O problema era que, naquele instante, Cristiano parecia ter se esquecido de uma coisa muito simples.
Quando Bruna humilhava Isabela dentro daquela mesma casa, ela também não queria voltar para lá.
E, ainda assim, ele sempre dizia a mesma coisa.
Que ela estava exagerando.
Que não devia levar tão a sério.
Agora, por que não dizia o mesmo à mãe e às outras?
Por que não mandava que elas engolissem também?
Isabela falou num tom tão calmo que chegava a irritar:
— O que foi que eu fiz, exatamente?
Cristiano puxou o ar devagar, tentando se controlar. Não adiantou.
— Já que você não quer se divorciar e insiste em continuar sendo nora dos Pereira, então aja como uma.
Aquilo quase arrancou uma risada de Isabela.
Agir como a nora exemplar dos Pereira?
Aquela altura, ele ainda achava que podia dizer esse tipo de coisa?
— Está bem. — Disse ela, pausadamente. — Você tem razão. Se eu vou continuar sendo a nora da família Pereira, então vou agir como uma.
Do outro lado da linha, Cristiano ficou em silêncio por um segundo.
Quando voltou a falar, havia ainda mais tensão na voz:
— O que você vai aprontar agora?
Isabela respondeu com a maior tranquilidade:
— Vou ser a nora exemplar que você está me pedindo pra ser. Ou isso também deixou de servir?
Cristiano não respondeu.
Nora exemplar?
Se ela tivesse dito aquilo algum tempo atrás, talvez alguém acreditasse.
Agora, não.
A respiração dele já estava descompassada.
— Isabela... O que você pretende fazer?
Ela sorriu, fria.
— Você tem razão sobre uma coisa: fazer sua mãe querer fugir de Nova Aurora foi uma falha minha.
Cristiano ficou imóvel do outro lado da linha.
Então ela concluiu, sem pressa:
— Mas fica tranquilo. Nenhuma delas vai embora.
Cristiano não soube o que dizer.



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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Abortos Repetidos e Nenhuma Piedade: Os Culpados Vão Pagar
Livro excelente,mas demora muito para atualizar...
Posta mais capitulos...