Cristiano sentia a irritação subir, pesada, quase sufocante.
Mesmo assim, forçou-se a conter o tom, reprimindo o desgaste na voz.
— Esses últimos seis meses, tudo o que eu quis foi que os filhos do meu irmão nascessem bem. Eu sei que você está com raiva de mim, sei que me culpa, mas…
Antes que pudesse terminar, o celular vibrou.
Era Bruna.
Nem precisava pensar para saber o motivo.
Com certeza, Lílian outra vez.
O incômodo tomou conta dele. Sem hesitar, Cristiano desligou a chamada.
No segundo seguinte, o celular voltou a tocar, insistente, como se Bruna estivesse decidida a não parar enquanto ele não atendesse.
O sorriso de Isabela tornou-se ainda mais ácido.
— Atende. — Disse, num tom carregado de sarcasmo. — Vai ver ela está agora mesmo no terraço do hospital, ameaçando procurar o Marcos. Só esse seu rosto, idêntico ao dele, é capaz de convencê-la a descer.
A depressão era realmente uma desculpa perfeita.
Convencia qualquer um. E ainda despertava compaixão.
Sempre que a família Pereira temia que aquele tipo de cena pudesse prejudicar os bebês, chamavam Cristiano imediatamente.
Não como indivíduo, mas como substituto.
Cristiano puxou o ar com força.
Num gesto quase automático, passou a mão pelo topo da cabeça de Isabela, acariciando-lhe os cabelos macios.
Como quem tenta acalmar um animal assustado.
Atendeu a ligação e falou, seco e gelado:
— Fala.
— Cris, vem rápido. A Lili está no terraço do hospital… Ela… Ela vai pular.
A voz desesperada de Bruna ecoava do outro lado da linha.
O sorriso de Isabela se aprofundou, cheio de escárnio.
Viu?
Bastava qualquer coisa envolvendo Lílian, e ela já sabia exatamente o que estava acontecendo.
Essa Lílian…
Sempre que Cristiano estava com Isabela, ela encontrava o momento exato e o motivo perfeito para arrancá-lo dali.
O rosto de Cristiano escureceu por completo.
Bruna não esperou resposta. Do outro lado da linha, a voz já vinha carregada de desespero:
— Eu sei que você disse que, depois que os bebês nascessem, não iria mais se envolver. Mas agora as crianças acabaram de nascer. Se ela realmente morrer, quando você encontrar seu irmão de novo, você acha que vai conseguir explicar isso para ele?
Cristiano ficou em silêncio.
A cada palavra, o semblante dele se tornava ainda mais sombrio.
Essa Lílian…
Nunca parava. Nunca.
Ele encerrou a ligação.
Quando ergueu o olhar, Isabela já tinha aberto a porta do carro.
Do banco de trás, pegou um guarda-chuva preto, abriu-o e ficou ali, parada sob a chuva.
Cristiano não arrancou imediatamente.
Estendeu a mão e segurou o braço dela.
— Eu te levo para casa primeiro.
Isabela não respondeu.
Permaneceu em silêncio, imóvel, deixando a chuva cair ao redor.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Abortos Repetidos e Nenhuma Piedade: Os Culpados Vão Pagar