Os olhos de Sérgio fixaram-se na barriga dela.
Júlia ficou tensa no mesmo instante.
Quase virou o rosto para sair correndo.
Mas Sérgio lançou apenas um olhar superficial para aquilo, sem dar muita importância.
— Almoçando com a barriga postiça?
Ele estava crente que a barriga era falsa.
Júlia suspirou aliviada.
— Diretor Santana, o que faz aqui?
— Queria ter uma palavrinha com você. — disse Sérgio.
Ele fez uma pausa e complementou: — Sobre a questão do tribunal.
Júlia hesitou por um momento, mas resolveu acompanhá-lo até o cenário que reproduzia um bairro periférico.
Por conta dos toldos montados, ela conseguia ficar protegida do sol.
As pontas dos dedos ardiam levemente por conta da pimenta dos lagostins.
Júlia colocou o celular num pequeno beiral de parede e puxou um lenço umedecido, limpando as mãos cuidadosamente.
— O resultado da sentença do Alberto Guedes saiu. Quinze anos. O seu irmão mais novo ainda não está sabendo. — disse Sérgio.
Ao escutar aquilo, Júlia permaneceu calada por um longo tempo.
No fundo, ela possuía laços de sangue com Alberto. Quando pequena, já sentiu raiva, rancor e também já alimentou esperanças secretas.
Porém, agora, a palavra pai soava como algo muito distante.
Junto de tudo aquilo, surgiu uma sensação difícil de admitir de alívio e libertação.
— Entendido, obrigada.
Sérgio assentiu com a cabeça, soltando um murmúrio afirmativo.
— Marlene Martins também foi condenada. Seis meses.
Júlia ficou surpresa.
Antes daquilo, o Sr. Xavier havia comentado que as evidências não seriam suficientes para mantê-la presa. Aliando isso à fortuna e ao poder dos Cardoso, ela provavelmente sairia da prisão em poucos dias.
— Fui eu quem fez isso. — disse Sérgio.
— De agora em diante, nem Marlene Martins, nem Clarice aparecerão na sua frente, não se preocupe.
Sérgio parecia alheio e distraído com aquela fala, mas, na verdade, seus olhos inspecionavam atentamente a reação de Júlia.
Júlia não demonstrou emoção alguma.
— E isso é assunto da família de vocês.
O que significava família de vocês?
Sérgio abriu a boca num ímpeto de retrucar, mas percebeu que ela já estava se distanciando.
Logo após recolher o celular que a moça deixara para trás, ele agiu com rapidez.
— Espere aí...
— Sra. Júlia, então você estava aqui!
A nova assistente rodara o set atrás de Júlia, e ao avistá-la, correu em sua direção, não percebendo a presença de Sérgio no ponto cego.
Ela sacudiu o frasco de remédio nas mãos: — É hora de tomar o ácido fólico depois do almoço. Passar da hora pode dar azia.
O coração de Júlia saltou pela boca.
Com rapidez, ela tapou a boca da assistente.
— Di-di-di, é o Diretor Santana?
Os olhos de Sérgio deslizaram sobre o frasco de remédio, suas pupilas contraindo-se levemente.
Ácido fólico?
Esse não era um remédio que se tomava apenas durante a gravidez?
O cãozinho era precioso e encantador.
Mas o trabalhador não estava preparado para aquilo, não entendia de nada, havia dito que não queria um, mas seu coração batia mais forte.
Todos aqueles pensamentos e emoções explodiram como fogos de artifício.
O que fez com que a expressão de Sérgio parecesse um tanto distorcida.
Lucas Franco aproximou-se a passos largos, puxando Júlia e colocando-a atrás de si.
— Diretor Santana, controle-se, por favor. O bebê na barriga de Júlia não é seu.
Um estalo soou em sua mente.
Os fogos de artifício se dissiparam, sobrando apenas um vasto e silencioso céu noturno.
Sérgio desconfiou se tinha ouvido direito.
— O que você disse?
Lucas respondeu: — O que você acabou de ouvir. É meu.
Sérgio nunca experimentou emoções tão intensas e sombrias antes.
Em poucos segundos, ele fora das nuvens para a lama.
A raiva incontrolável acendeu numa brasa violenta, quase devorando por completo qualquer traço de sanidade.
Ele apertou os olhos, perfurando a figura de Júlia com o olhar.
— Eu não acredito!
Lucas sorriu.
— Acredite no que quiser.
O peito de Sérgio começou a arfar violentamente, focado em Júlia, com os olhos banhados em veias de sangue.
Ele articulou palavra por palavra, como se as falas tivessem sido arrancadas à força de suas cordas vocais.

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