Ela se aproximou, tentando tocar em Sérgio, mas se deparou com um rosto bonito, agora tomado por repulsa.
O coração de Clarice disparou.
As lágrimas começaram a cair feito contas de um colar arrebentado.
— Júlia, me perdoa, a culpa foi toda minha, por favor, não coloque a culpa no Sérgio e nem no Bernardo.
Ela trincou os dentes e curvou-se em uma reverência para Júlia.
— O Bernardo ainda é só uma criança, ele não entende direito as coisas. Júlia, por favor, perdoe-nos. Qualquer raiva, desconte em mim.
A voz de Clarice soava puramente sincera:
— Para proteger o Sérgio e o meu filho, eu aceito engolir qualquer desaforo.
Júlia estava maravilhada.
Tão impressionada que não resistiu e bateu palmas.
'Clap, clap, clap', três vezes.
Sérgio se sentiu completamente humilhado e cheio de culpa.
Contendo a fúria, disse a Bernardo:
— Volte já para a sua sala.
Bernardo sentiu que tinha recebido um perdão divino e correu com suas perninhas curtas.
Clarice odiava Júlia com todas as forças, mas não ousava revidar ali.
Como de costume, tentou se aproximar de Sérgio para se fazer de vítima.
Contudo, ao quase tocar a manga dele, foi prontamente repelida.
Sérgio escovou uma sujeira invisível da própria roupa.
A máscara de vulnerabilidade de Clarice se desfez em um segundo.
— Sérgio...
— Não me chame assim, e acabe com essa encenação de uma vez.
Sérgio fechou os olhos:
— A família Cardoso e a família Santana são amigas de longa data. Eu prometi ao meu avô que cuidaria muito bem de você, mas, Clarice, você nunca deveria ter desejado além disso.
— A partir de hoje, não vou acreditar em nenhuma sílaba que sair da sua boca. E por favor, desapareça da minha vista.
Clarice ficou em choque.
Nunca sequer imaginou que Sérgio seria capaz de jogar palavras tão cruéis nela.
As pontas dos dedos tremeram.
Júlia foi embora levando Dora com ela e pediu para dispensá-la por alguns dias.
Ela não tinha ideia de que, mesmo tendo ido falar com a professora ainda de dia, à noite o assunto já estava rodando no grupo do WhatsApp dos pais.
— Mãe da Dora, eu ouvi dizer que você teve que ir na diretoria hoje?
— Eu soube que o pai daquele menino Bernardo é milionário e conhece figurões na prefeitura, não seria melhor deixar isso pra lá?
— Verdade, isso aí não passa de rinha de criança. Não é o fim do mundo.
— Pensa lá na frente, quando os nossos pequenos puderem ter a chance de estudar francês. É algo que eles vão levar pro resto da vida.
— A minha Nanda me disse que quando a Dora e o Bernardo brigaram ela tava perto. Ah, brincar... O brinquedo foi o cara quem deu né, poxa. A Dora só levou uma mordidinha, nada demais.
Júlia sustentou o silêncio, apenas observando cada mensagem friamente.
Eles só estavam com o discurso bonito assim porque a pimenta não ardeu no olho deles.
Num passe de mágica, ela espalhou diversos vídeos direto no grupo.
Vídeo 1: Bernardo agarrando Nanda pelos cabelos e zombando do enfeite do seu rabinho de cavalo, dizendo que é muito feio. @Mãe da Nanda
Vídeo 2: Bernardo destruindo com um pisão o brinquedo do Duda e ofendendo-o na cara. @Mãe do Duda
Vídeo 3: Bernardo usando Bento como escravo, ordenando que ele servisse os lápis ajoelhado, rasgando em seguida o caderninho do garoto. @Mãe do Bento

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