Sérgio Santana abriu a boca, girando as palavras na garganta antes de pronunciá-las de má vontade.
— Tenho ciúmes.
Júlia Guedes ficou surpresa.
Não imaginava que ele diria aquelas duas palavras.
Os ombros de Sérgio caíram e ele se recostou totalmente na porta luxuosa do carro.
— Tenho ciúmes do Lucas Franco ter sido seu colega de faculdade e conhecido uma versão sua que eu nunca tive a chance de ver.
— Tenho ciúmes de ele ter estado ao seu lado durante a gravidez e o nascimento da Dora.
— Talvez os bebês não compreendam muita coisa, mas tenho certeza de que, nos primeiros anos, ela pensava que o Lucas era o verdadeiro pai dela, não é?
Júlia perdeu a voz.
Sérgio sorriu com amargura.
Afinal, quem ele podia culpar além de si mesmo?
O tempo perdido jamais retornaria; aquilo que passou estava selado.
O peito de Júlia pesou.
Não pelas dores do passado, mas ao lembrar que Sérgio Santana sequer teria um futuro.
O ar dentro do carro pareceu inundar-se, denso a ponto de sufocar qualquer respiro.
Esse mal-estar persistiu ao longo da noite.
Dora finalmente perguntou.
— Mamãe, você brigou com o papai?
— Não.
Júlia acariciou a mãozinha macia da filha.
Dora suspirou aliviada e abriu a câmera de monitoramento da gaiola do coelho para mostrar à mãe.
Durante os dias na mansão antiga, o coelhinho estava murcho e cabisbaixo.
— O papai me disse que os coelhos são as presas perfeitas da natureza e que ficam chateados quando mudam de casa.
— Quando a gente vai pra casa?
Casa.


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