— Foi ela quem bateu, ou bateram nela?
Depois que mãe e filha entraram no carro, Janaina explicou que o carro de Daniela havia sido atingido na traseira enquanto ela esperava o sinal abrir.
Senhora Assis comentou: — Ser atingida enquanto espera no semáforo… A sorte de Daniela não está muito boa. Diga a ela para ir a um santuário fazer umas preces.
— Mãe, se rezar e pedir proteção aos céus resolvesse tudo, não haveria tanta gente doente ou sofrendo acidentes por aí — disse Janaina, sem tirar os olhos da rua.
— O motorista de trás estava no celular e não freou a tempo. Foi isso que causou o acidente.
— Mesmo assim, não custa nada rezar um pouco. Às vezes, é bom ter um pouco de fé nessas coisas, mas vocês, jovens, nunca acreditam.
Senhora Assis pegou o celular para checar a data e comentou: — Daqui a dois dias é dia de devoção. Vou ao santuário rezar e pedir uma medalha de proteção para Daniela carregar com ela.
Janaina não tentou impedir a mãe de buscar suas bênçãos.
A mais velha era uma mulher de muita fé.
No próprio carro de Janaina havia um amuleto que a mãe lhe dera, e ela mesma sempre carregava outro na bolsa.
Até mesmo em sua casa, debaixo do travesseiro, repousava uma medalhinha abençoada que a mãe havia conseguido.
Janaina não era supersticiosa, mas sabia que isso era só uma forma de carinho da mãe. Se a mãe pedia aquelas proteções com tanto carinho, ela as aceitava de bom grado; afinal, era puro amor materno.
Antes mesmo de abrir o negócio com Daniela, quando se dedicava exclusivamente à escrita, a mãe havia contratado um especialista em organização de ambientes para visitar seu apartamento. Ele a orientou sobre a disposição dos móveis e o que colocar na mesa do computador para atrair inspiração.
As duas seguiram para o local do acidente.
O guincho acabara de chegar e já içava o carro de Daniela.
Ela aguardava na calçada, esperando a amiga buscá-la.
Janaina encontrou uma vaga próxima, estacionou, e mãe e filha caminharam até ela.
— Não sofri nem um arranhão, não há necessidade de ir ao médico.
Diante da insistência de Daniela, mãe e filha da Família Assis desistiram de convencê-la a ir ao hospital.
Já dentro do carro, Janaina perguntou: — Para onde você estava indo? Ia encontrar algum cliente? Quer que eu te deixe lá?
— Não, eu só queria uma desculpa para não ficar perto daquele Gilson. Pensei em dar uma passada no set de filmagens, já que a equipe está gravando cenas externas nos arredores da cidade. Mas quem diria que, parada num semáforo, alguém bateria na minha traseira.
Daniela sentia que o dia estava sendo um verdadeiro desastre.
Primeiro, Nathan Ramos, que andava sumido, apareceu do nada para importuná-la. Depois, esbarrou com Cíntia, sua maior rival. Como se não bastasse, ao entrar na cafeteria, deu de cara com Gilson, um estranho cujas intenções ela não conseguia decifrar.
E, justamente por inventar uma desculpa para fugir dele, acabou se envolvendo naquele acidente.
— Daniela, não me leve a mal por ser intrometida ou supersticiosa, mas eu soube por Janaina de tudo o que tem acontecido com você ultimamente. Por que não vai ao santuário fazer umas preces? O lugar que eu frequento é muito abençoado, sempre cheio de fiéis. É um dos mais famosos aqui na Cidade A.

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