Taís estava com os pensamentos um pouco confusos. Ela não queria pensar no homem que, naquele momento, jazia na cama de hospital, tão frágil que mal podia se levantar, mas sua mente, sem perceber, ela fantasiava sobre como ele estaria no futuro. Haveriam cicatrizes feias marcando seu rosto, olhares estranhos das pessoas ao redor? Só de pensar nisso um tormento tomava seu coração.
Taís se esforçou para suprimir todas aquelas imagens de sua mente, e abriu o tubo de pomada para focar em outra coisa.
Ela levantou a manga fina de sua blusa, expondo as inúmeras cicatrizes. Eram marcas que, apesar de terem sido suavizadas pelo tempo, ainda eram visivel o suficiente para serem chocantes.
Havia também uma mancha roxa e vermelha no local onde ela havia batido o braço na porta. Pedro queria ver a marca que ele acidentalmente causou em Taís, mas a visão das cicatrizes antigas o fez congelar. As marcas deixadas pelas facas no braço de Taís, longas e finas, embora não cobrissem todo o seu braço de forma exagerada, eram suficientes para fazer qualquer um se perguntar que tipo de pessoa cruel e insana faria tal coisa a uma jovem.
Pedro sabia das cicatrizes de Taís. Naquela confusão com a família Garrote, ela havia mostrado suas marcas para todos. Mas ouvir sobre elas não era nada comparado ao choque de ver as cicatrizes pessoalmente. Não era surpresa que, mesmo em dias quentes, ela sempre usasse mangas compridas. Ela estava sempre tendo que esconder aquelas marcas.
Pedro mordeu o lábio e fixou o olhar na recente mancha roxa e vermelha no braço dela, evitando olhar para as outras marcar.
- Me desculpe, Taís, não foi minha intenção.
Tatiana já havia espalhado a pomada e abaixado a manga da camisa.
Ela guardou a pomada e levantou os olhos para dar uma olhada em Pedro, capturando a complexidade de emoções em seus olhos.
Era um olhar que ela reconhecia. Não era a primeira vez.
Quando ela foi resgatada por Eduardo daquele lugar, antes mesmo de ir ao hospital fazer o teste de paternidade, antes de ser reconhecida pela família Orsi, quando Eduardo viu seu estado sangrando profusamente, ele tinha esse mesmo olhar; e também aquela vez na família Garrote, quando ela removeu a saia longa que cobria as marcas em suas costas, Lorenzo olhou para ela com a mesma expressão.
Era pena? Indignação? Ela não sabia dizer.
Ela sorriu levemente e disse:
- Não é nada, em alguns dias as marcas desaparecerão, e nem está doendo. - Disse ela, mesmo sabendo que não era daquele machucado que ele estava falando.
Não doía. Como não poderia doer?
Eram tantas cicatrizes que ela já não conseguia lembrar quando cada uma aconteceu, muito menos como se sentiu naquele momento.
Ela só sabia que, quando estava quase morrendo, a dor era tão insuportável que ela desejava alguém que lhe desse um fim.
Mas o fim não veio. Ela sobreviveu. E as dores daquelas memórias, assim como as cicatrizes em seu corpo, pareciam desvanecer lentamente, e ela sentia que aquela dor era cada vez menos real.
Aquelas cicatrizes podiam desaparecer, mas nunca seriam completamente apagadas de seu corpo.
Ela não podia agir como se nada tivesse acontecido.
Como poderia perdoar tão facilmente?
Tatiana se levantou do sofá, seu tom de voz era calmo:
- Aproveite sua refeição, vou indo. Serei responsável até Lorenzo receber alta, mas lamento, não posso ficar ao lado dele o tempo todo. Se ele acordar, espero que você possa passar uma mensagem para ele, independente do que ele esteja pensando agora, não há mais chance de voltarmos a ficar juntos.
Se ele havia ido atrás dela até a Cidade B, ela poderia presumir que Carolina o havia deixado e agora ele queria reatar com ela. Mas ele arriscou sua vida para proteger as pessoas ao seu redor, o que indica que havia outro motivo. Talvez uma realização súbita, ou talvez algo mais.
Mas, de qualquer forma, ela não poderia esquecer tudo o que havia acontecido, e as cicatrizes em seu corpo não podiam ser completamente removidas.
O rancor em seu coração talvez pudesse ser suavizado com o tempo, mas aquelas memórias sombrias nunca seriam completamente esquecidas.
Talvez, em algum dia no futuro, ela pudesse recuperar o ânimo de brincar inocentemente com Lorenzo, quando os dois Fossem capazes de sorrir na presença um do outro e esquecer todas as mágoas.
Mas se perguntassem se ela gostaria de estar com ele novamente, a resposta seria não.
Ela decidiu não demorar mais, levantou os olhos para Pedro com um sorriso e então deu um passo para sair.
Em seguida, o aroma delicioso da comida começou a se espalhar pelo quarto do hospital.
Pedro voltou a si e viu Rafael colocando a comida no pequeno móvel em sua frente.
- O que você ainda está fazendo aqui?
- Por que eu não poderia estar aqui? Fui encarregado por Taís de trazer comida para você. Qual é o problema?
Rafael colocou a comida e os utensílios cuidadosamente na frente de Pedro, com muita consideração. Após fazer isso, ele pegou um guardanapo e começou a limpar as mãos meticulosamente, e se sentou calmamente no sofá.
Pedro sentiu uma dor de cabeça só de ver o irmão.
- Sai daqui! - Bradou ele.
Ele não havia expulsado Rafael antes por causa de Tatiana, mas como ela não estava mais lá, não havia mais motivos para se conter.
Rafael ignorou seu comentário e jogou casualmente o guardanapo no lixo.
- Eu vou embora depois que você terminar de comer. Tenho que devolver a marmita para Taís.
Pedro não podia mais suportar a presença de Rafael.
- Desde quando você pode chamar ela assim?
Rafael soltou uma risada leve e tirou seus óculos. Seus olhos eram muito parecidos com os de Pedro.
- O que é, se você pode chamar ela de Taís, por que eu não posso?

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Após divórcio, ex-marido implora por reconciliação todo dia
Por favor, continuem esse livro!...