Ponto de vista do Bastien
"A Arabella foi quem provocou o incêndio que deveria ter me matado."
Alguns anos atrás, eu teria pensado que Selene estava louca por sugerir tal coisa. Antes do incêndio, Arabella parecia a mesma adolescente insossa que eu sempre conhecera: vaidosa, egocêntrica e acostumada a fazer as coisas do seu jeito. Meu pai e eu a mimamos muito após a morte de Flynn, deixando-a sair impune de tudo por culpa, e nos convencendo de que suas travessuras eram inofensivas.
De certa forma, foi cômodo sermos manipulados por ela - se fomos tolos o suficiente para aceitar tudo o que ela fazia ao bancar a inocente delicada com um piscar de cílios, bom, isso é por nossa conta, não dela. E embora eu sempre soubesse que sua inocência era apenas isso - um ato - nunca imaginei que Arabella tivesse feito algo realmente maldoso.
Subestimei o seu desejo de poder, assim como seu ego e astúcia. Ela sempre foi inteligente, mas eu torcia que usasse os seus talentos em algo mais nobre do que a ascensão social. Por um tempo, tive esperança de vê-la correspondendo às minhas altas expectativas. Afinal, quando Selene estava viva, Arabella sempre estava lá para mim quando eu precisava de um ombro para me apoiar, alguém para me ouvir, e sempre entendia a minha posição e se solidarizava com as minhas lutas.
Mas eu não queria a pena ou empatia de ninguém depois que Selene morreu, e as repetidas tentativas dela de se aproximar de qualquer maneira aos poucos acabaram virando algo muito mais sombrio. Em vez de atribuir a mim a culpa que merecia pela morte da minha companheira, ela colocou a responsabilidade em Selene. Não que tenha sido clara ao falar isso, mas sempre insinuava. Por fim, ela começou a criticar Selene abertamente, deixando-me indignado e ignorando as minhas repreensões todas as vezes.
Quando ela finalmente conspirou com o Conselho Ancião para arquitetar um casamento entre nós, suas maquinações vieram à tona, e isso foi a gota d'água. Ao longo dos anos, nosso relacionamento foi se deteriorando, até que virou nada mais do que a sombra da amizade que eu acreditava que tínhamos. Além disso, todas as vezes que tentei me reaproximar, Arabella aproveitou para tentar se insinuar e virar minha companheira - acabando com qualquer qualquer progresso ou esperança que eu tinha de retomarmos a amizade.
Com o tempo, ficou muito claro que ela queria liderar o bando a qualquer custo, independentemente de quem se colocasse no seu caminho, e embora eu ainda não queira acreditar que a garotinha com quem cresci possa ser capaz de tamanha maldade, já vi muito do mundo para considerar impossíveis as acusações da minha companheira.
"Foi a Arabella que ateou fogo no chalé?" Repito com rispidez.
Logo fica claro que Selene não esperava que eu acreditasse nela. A minha companheira dá um passo incerto para trás e, por um momento, acho que ela realmente vai responder, mas vejo-a parando, como se tivesse se lembrado do seu objetivo. "Não responderei mais nenhuma pergunta até que você me leve até Lila."
Por mais que eu queira manter a vantagem nessa situação, não posso adiar respostas tão importantes. "Vamos." Ordeno, partindo a trote.
Selene me segue de perto, bufando de indignação toda vez que diminuo o passo por causa dela e reclamando quando paro para fazer algo aparentemente desnecessário. Estou tão impaciente quanto ela para voltar, mas, embora ela possa estar disposta a ultrapassar os próprios limites para reencontrar a sua filhote, nem as respostas para as minhas dúvidas são incentivo suficiente para que eu arrisque a saúde da minha companheira.
Aiden e Donavon estão esperando no esconderijo quando voltamos. Eles arrumaram o local isolado depois que saímos, e Lila está alegre brincando no jardim da frente. Levo alguns minutos para ajudar Selene a voltar à sua forma humana, mas uma vez que seus gemidos se acalmam, e sua linda pele é protegida por roupas quentes mais uma vez, não há mais nada para impedi-la de ir até sua filhote.
Lila parece alheia à emoção da mãe enquanto Selene a sufoca com abraços e beijos, mas sinto o alívio e a manifestação de amor da minha companheira como se fossem meus. Não quero nada mais do que me juntar a elas e oferecer o meu afeto, mas no momento em que dou um passo à frente, Selene mostra suas presas, protegendo a menina de mim com seu pequeno corpo.
O canto da minha boca se contorce. Sempre adorei ver os flashes de ferocidade de Selene, raridades absolutas durante o nosso casamento, mas que nunca deixaram de me lembrar de um gatinho mal-humorado. Mesmo agora, quando sei que sua agressão é real, eu a acho adorável.
Lila tagarela contando a Selene sobre sua noite com os meus Betas, e, enquanto entramos na casa, Aiden e Donavon montam a defesa do lado de fora. Por mais impaciente que eu esteja por respostas, descubro que não me importo de esperar para terminar a minha conversa com Selene, não quando vê-la interagir com a filha é tão fascinante.
Ela dá toda a atenção a Lila, ouvindo atentamente cada palavra que sai da boca da filhote e fazendo perguntas ansiosas, o tempo todo me mirando com sua visão periférica. Quando o foco de Lila muda para mim, seus lábios se abrem em um sorriso largo e cheio de dentes, e seus olhos brilhantes se iluminam com entusiasmo. Selene me encara por cima da cabeça da criança, então, relutante, deixa Laila cambalear até mim.
Eu pego o precioso serzinho com mãos gentis. "Olá filhote. Você se divertiu com o tio Aiden e o tio Donavon?"
"Sempre planejei ir embora depois da cerimônia da rejeição, mas comecei a me questionar depois que ela tentou me empurrar escada abaixo no hospital. A única razão pela qual ela caiu foi porque perdeu o equilíbrio."
As palavras me cortam como uma faca. Eu fui tão alheio assim ao que estava acontecendo debaixo do meu nariz? A lembrança de Arabella chorando na maca do hospital aparece na minha mente, seguida de perto pela imagem de Selene encolhida no chalé, olhando para mim como se eu fosse um carrasco. Ela sabia que Arabella a culpava pela queda e presumira que eu ficaria do lado da outra mulher em vez dela.
"Então, quando conversamos na joalheria, ela deixou bem claro que me mataria se eu não seguisse com os meus planos." Selene continua emburrada. "Mas a morte do Gabriel tornou isso impossível… afinal, eu não tinha como ir embora. Então, ela deu um jeito de me fazer desaparecer, provando que cumpria com sua palavra."
"Se tudo isso é verdade, por que em nome da Deusa você não me contou?!" Há uma tempestade turbulenta no meu peito. Como ela pôde ter escondido essas coisas de mim?
"Porque você a escolheu!" Selene grita. "Você a escolheu em vez de mim, várias vezes."
"Nunca." Insisto. "Eu nunca a escolhi em vez de você!" Ela abre a boca para contestar, mas eu levanto a mão, interrompendo-a. "Não posso mudar o que aconteceu no passado, Selene. Sinto muito por ter feito você achar que não era a minha escolha, porque você sempre, sempre foi." Eu juro. "Eu não fazia ideia do que Arabella estava fazendo. Não tinha ideia de que ela era capaz de tais coisas ou tinha alguma intenção relacionada a mim até muito tempo depois de achar que você estava morta." Eu admito com desgosto.
"Nunca quis te machucar, e nunca imaginei que ela estava te contando todas aquelas mentiras." Pego as mãos dela nas minhas. "Por favor, acredite em mim, lobinha." Imploro. "Porque eu acredito em você, e farei Arabella pagar por seus crimes."
"Eu não acredito em você." Selene nega com a cabeça, baixando a voz para que Lila não ouça seu tom áspero. "Você teve mil chances de tomar a decisão certa e desperdiçou todas elas." Ela sibila. "E não terá outra." Seus olhos de dois tons são duros como pedra, sua voz sedosa, áspera e insensível. "A minha filha ficará perto do pai dela, e eu com ela. Volte para Elysium e esqueça de nós." Selene ordena. "Com alguma sorte, nunca mais nos veremos."

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Arrependimento após a Rejeição
Eu simplesmente amei os 4 primeiros capítulos e espero que não demore muito para atualizar os outros...