Seria de se esperar que, em uma recepção tão sofisticada como aquela, a entrada de estranhos fosse proibida — e, menos ainda, que surgisse um bêbado.
Fui impedida de seguir, então peguei o celular, pronta para chamar Lion e pedir ajuda.
Para minha surpresa, o bêbado deu um tapa no aparelho, derrubando-o no chão, e veio para cima de mim exalando um hálito forte de álcool, enquanto murmurava obscenidades.
— Saia do caminho. Se continuar, vou chamar alguém — disse em tom firme, enquanto meus olhos vasculhavam o entorno em busca de algo com que pudesse me defender.
— Olha só, que gracinha... Desse jeito, você provoca qualquer um. Que cintura fina... Vem cá, me deixa dar uma apalpada — disse ele, estendendo a mão em direção à minha cintura com um olhar lascivo.
Afastei a mão dele com força. O sorriso dele se desfez, e, num instante, passou a me xingar com ódio:
— Vagabunda! Como se atreve a me bater? Tá querendo morrer, é?
Dizendo isso, tentou puxar meu cabelo.
— Seu canalha, solte ela!
O grito soou familiar. Uma silhueta magra surgiu de repente, me puxou para o lado e, sem hesitar, acertou um soco no bêbado.
Pessoas do salão ouviram a confusão e olharam em nossa direção.
O bêbado, percebendo que não teria vantagem, se levantou apressado, lançou uma ameaça e saiu tropeçando, quase caindo.
— Francisca, você está bem? Me desculpe, cheguei tarde.
Víctor Laranjeira, usando seu habitual terno preto, estava diante de mim. Ele era incrivelmente magro; sua mão direita cerrada em punho, com sangue escorrendo pelos dedos.
Devia estar sentindo muita dor. Seu corpo todo tremia, o rosto pálido como nunca, mais branco que qualquer inverno, e os olhos negros piscavam seguidamente, inquietos.
Era ele de novo!
Em um só dia, me salvara duas vezes. E eu já lhe devia duas.
Isso me incomodava. Falei baixo:
— Estou bem, obrigada. Sua mão está sangrando, precisa cuidar disso.
Um funcionário trouxe uma caixa de primeiros socorros e nos informou que havia algumas salas de descanso no fim do corredor.


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