— Ai, e se eu não conseguir, o que muda? Não vou querer um homem que não me tem no coração. O orgulho dele é tão grande, também jamais aceitaria uma mulher muito acima dele em posição e status. Já que nessa vida não existe a menor chance, é melhor soltar logo. Ontem minha mãe falou de novo sobre sair com pretendentes, eu aceitei. Que seja, cedo ou tarde ia acabar nisso, tanto faz quem vai ser no final, eu aceito, de qualquer jeito meus pais nunca me jogariam no fogo.
Não disse nada, apenas encarei os olhos de Cecí, onde só havia um vazio árido, como se fosse a água estagnada de um lago numa caverna escura, esquecida por séculos.
Nessa hora, qualquer palavra soaria inútil. Peguei a caixa de lenços do criado-mudo e coloquei no colo dela.
— Chora, Cecí. Chora tudo agora, e depois esquece ele de vez.
Os olhos de Cecí ficaram parados por dois segundos. Então, ela desabou num choro alto, batendo as mãos no colchão, com tanta dor que parecia que estavam tirando metade da vida dela.
Lembrei de mim, quando vi Víctor Laranjeira e Serena Cruz se beijando pela primeira vez. Aquela dor, só entende quem já passou. É como se, de fato, a gente precisasse arrancar um pedaço de si pra preencher o buraco que ficou.
— Francisca, eu podia ter salvo ele. Ele tem talento, eu ofereci dinheiro, ele podia recomeçar. Por que ele não aceitou? Falei que era empréstimo, podia ser até sociedade, tanto faz, ele não quis de jeito nenhum. Por quê, Francisca, me diz por quê? Por mais que eu o ame, jamais forçaria ele com dinheiro, nunca faria isso, não sou tão baixa assim.
O motivo era simples.
— É o orgulho dele, Cecí. Se ele aceitasse seu dinheiro, ia passar a vida inteira sem conseguir te olhar de igual pra igual. Ele é orgulhoso demais. E, pra ele, a condição de filho ilegítimo pesa muito.
Cecí ouviu, ficou muito tempo em silêncio, as lágrimas apenas caindo, sem parar.
Havia apenas quatro mesas quadradas. No canto direito, uma mãe e uma filha discutiam animadamente se pediam coxa ou asa de frango.
A menina, vestida com um suéter amarelo decorado com desenhos animados e botas amarelas brilhantes, agitava as mãos tentando convencer a mãe de que a asa, mais fina e cheia de sabor, era melhor que a coxa mais carnuda.
No fim, a mãe atendeu ao pedido da filha e pediu duas porções de asas. A menina agradeceu à mãe com entusiasmo, fazendo um gesto delicado com os dedos, e começou a comer as asas devagar, manchando os lábios pequenos de vermelho, muito fofa.
O cabelo dela era ralo, trançado em pequenas maria-chiquinhas de cores diferentes, revelando o couro cabeludo clarinho, mas isso só a deixava mais graciosa.
Pisquei os olhos, mas a visão ficou turva por um instante. Outra menininha, vestida com um vestido azul-claro de princesa, sapatos combinando e dois rabinhos amarrados com elásticos coloridos, veio tropeçando em minha direção. Ela abriu os braços, um sorriso enorme no rosto, e me chamou de mãe, com aquela voz suave.

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