Criada como uma princesinha, ela provavelmente estava acostumada a resolver problemas com lágrimas, sempre com alguém para consertar as coisas.
Por isso, desenvolveu o hábito de, diante de qualquer dificuldade, grande ou pequena, que não quisesse ou não conseguisse resolver, simplesmente começar a chorar.
Eu fiquei quieta a um canto, com os olhos baixos, olhando para a ponta dos meus sapatos, sem dizer uma palavra.
Quem começou a confusão foi Marina Batista.
Primeiro, tentou criar problemas na relação de Flávia e Lion.
Depois, tentou anunciar em público uma relação inexistente entre ela e Fernando Gomes, ignorando os avisos dele, o que era um desafio direto à sua autoridade.
Eu pensei que, por mais que Fernando Gomes estivesse irritado, ele não humilharia Marina Batista na frente de tantos funcionários.
Afinal, as duas famílias eram amigas há décadas, e era preciso manter as aparências.
Mas Fernando Gomes me surpreendeu completamente.
Ele não demonstrou a menor consideração, adotando uma postura estritamente profissional.
As pessoas começaram a se aproximar.
Algumas para admirar de perto a beleza divina do grande chefe, outras para acompanhar a fofoca.
Afinal, fofocas envolvendo o chefe eram tão raras quanto a colisão de um cometa com a Terra.
Eu estava em uma posição mais afastada e ouvi alguns sussurros.
— Aquela Srta. Batista veio à nossa sala hoje de manhã. Trouxe um saco enorme de salgadinhos e pediu chá com leite para todo mundo. Disse que era a noiva do chefe, que iam se casar em breve e até mostrou uma foto do modelo do anel de noivado.
— Você não ouviu o chefe dizer: "É mesmo? Por que eu não estou sabendo?" Isso quer dizer que o chefe não sabe de nada sobre anel de noivado, noivado e tudo mais.
— A Srta. Batista é jovem e bonita. Seria bom tê-la em casa como um belo vaso para se admirar.
— Ah, para com isso! Um homem com o status do nosso chefe não seria tão superficial a ponto de escolher um vaso. Ele com certeza escolheria alguém com quem tivesse uma conexão de alma e corpo.
— Isso, ou então optaria por um casamento de negócios, frio e sem emoção, vivendo uma vida de respeito mútuo, mas sem amor.
— Então estamos perdidos. Comemos os salgadinhos, bebemos o chá... e agora?
— E agora, o quê? Na pior das hipóteses, a gente devolve o dinheiro. Se fosse eu, com certeza ficaria do lado do chefe.
Que estranho.
Eu também era uma das protagonistas da história, mas ninguém me mencionou.
Será que sou tão insignificante que ninguém percebeu minha existência?
Flávia lançou um olhar de reprovação a Lion.
— Só pensa em comer. Francisca, você ainda consegue comer?
— Vamos voltar e tirar um cochilo. Não vou comer mais. Se sentir fome à tarde, peço um lanche. É por minha conta.
No fim das contas, Flávia e Lion foram arrastados para essa confusão por minha causa e de Fernando Gomes.
Pagar um lanche não expressava nem um pingo da minha culpa.
Pensei que, à noite, precisaria refletir seriamente sobre como fazer Marina Batista entender que eu não era sua rival.
— Então eu quero daquele lugar caríssimo em frente à empresa.
— Pode ser. E que tal eu já pedir seu jantar também?
Flávia Letícia quase pulou de alegria, mas ao ver o rosto impassível de Fernando Gomes, conteve a empolgação e engoliu em seco.
Olhando para sua expressão de quem engasgou, não consegui conter o riso.
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