O quarto estava silencioso, iluminado apenas pela luz suave da manhã que se infiltrava pelas frestas da cortina como fios de ouro. O ar ainda carregava o perfume do que havia acontecido horas antes. As cobertas amassadas denunciavam a intensidade da noite, ainda assim, havia uma paz nova estendida sobre tudo, como se o tempo tivesse diminuído o passo apenas para que eles dois pudessem respirar.
Lila abriu os olhos devagar. O corpo inteiro estava pesado, aquela dorzinha boa que não fere, só lembra, em cada músculo, do que foi vivido. Bocejou, espreguiçando os dedos dos pés sob o lençol, e piscou algumas vezes até a claridade se assentar. Então o olhar encontrou o dele.
Taylor dormia ao seu lado, parcialmente descoberto, o peito largo subindo e descendo num ritmo constante. O cabelo, rebelde, caía sobre a testa. A barba por fazer marcava o maxilar com aquele charme preguiçoso de quem nasceu para ser pecado em jeans e botas. Havia um contraste irresistível: o cowboy indomável, dono de uma força bruta e mãos grandes, agora estava abandonado ao descanso, tranquilo, vulnerável e completamente dela.
Ela sentiu o peito apertar do jeito bom, aquele que parece amarrar o coração a outra pessoa por dentro. Passou a ponta dos dedos nos próprios lábios, recordando o beijo da noite anterior, o primeiro, o segundo, o milésimo e sorriu, meio sem fôlego, como se o beijo tivesse acabado de acontecer. Por um instante pensou em se levantar e buscar água, mas o simples pensamento de deixá-lo sozinho na cama pareceu uma afronta às leis da ternura. Virou-se de lado, apoiou o queixo na mão e ficou ali, guardando a vista mais bonita que já teve na vida.
Taylor se mexeu, e um suspiro baixo escapou de seus lábios. Os olhos azuis se abriram devagar, pesados de sono, até encontrarem os dela. Lila foi pega no flagrante e arregalou os olhos, ele, porém, sorriu com aquele meio sorriso que sempre derretia ossos.
— Tá me espionando, princesa? — a voz saiu rouca, ainda emoldurada pelo sono, carregada de brincadeira.
Lila desviou o olhar, sem sucesso em esconder o rubor que subia. Não respondeu, e isso o divertiu. Ele esticou o braço, segurou-a pela cintura e a puxou com naturalidade para cima dele. O choque quente da pele dele contra a dela fez o coração disparar, como se a noite recomeçasse num estalo.
— Dormi tão bem… — murmurou, encostando os lábios no topo da cabeça dela. — Mas acordar com você aqui… — a mão dele passeou, lenta, pelas costas nuas — é melhor que qualquer sonho.
Ela mordeu o lábio inferior, tentando domar um sorriso que insistia em crescer.
— Você devia estar dormindo — tentou provocar, mas a voz saiu baixinha, traidora, meio trêmula.
Taylor levantou uma sobrancelha.
— Difícil dormir quando você me olha desse jeito — disse, aproximando o rosto até quase encostarem nariz com nariz. — Sabe que isso é perigoso, né, princesa?
O olhar dele desceu em trilhas lentas: a boca dela, a curva do pescoço, o colo parcialmente exposto. A mão grande traçou a lateral da cintura dela por baixo da camisola de maneira gentil, e ao mesmo tempo, possessiva.
— Não olha pra mim assim, Taylor… — ela sussurrou, com um meio riso nervoso.
— Assim como? — a pergunta veio num grave macio, tão próximo que ela quase ouviu as palavras roçando sua boca.
Ele a puxou mais, a abraçando de conchinha. Ficaram assim por uns minutos, ensaiando um idioma só deles, feito de pele, cheiro e silêncio. Até que Taylor falou, com um sorriso manso curvando a voz:
— Se acostuma, princesa… eu nunca vou te deixar fugir de mim.
O coração de Lila tropeçou em alegria. Ela se virou, ficando de frente para ele e tocou a bochecha dele com a ponta dos dedos, brincando com um fio do cabelo bagunçado e, antes que respondesse, a pequena vida que crescia no ventre se mexeu.
Lila ficou parada por alguns segundos. Seus olhos azuis marejaram de imediato e ela pousou a mão sobre a barriga de forma instintiva. Taylor, como se obedecesse a um chamado sem som, seguiu a mesma rota. A palma grande cobriu a dela com cuidado devoto. Lila desviou os olhos para ele e sorriu.
— Bom dia, pequeno… — Taylor murmurou, e a voz que era grave ficou de repente doce, quase boba. — Dormiu direitinho no hotel cinco estrelas da mamãe?
— Você vai ser um pai maravilhoso. — ela disse, simplesmente, com a verdade quebrando a voz.
Taylor ergueu o olhar. Havia uma alegria assustada ali, a melhor de todas, aquela que dá vontade de ficar à altura do milagre.
— Eu vou dar um jeito. — respondeu, honesto. — Se eu errar, eu aprendo. E se eu cair, eu levanto. Mas vocês dois… — pousou a mão no coração — vão ser sempre a minha direção.
Ela estendeu os braços, puxando-o para um abraço. O cheiro dele, fez o tempo virar algodão. Ele a envolveu e, por um instante, os três existiram abraçados: o homem, a mulher e o sonho que mexia em ondas invisíveis.
— Acha que é peãozinho ou uma estrelinha? — ela perguntou, com a boca roçando a barba dele.
— Eu acho que é tempestade — ele riu. — Se puxar a mãe, vai chegar acendendo a casa inteira. Se puxar o pai, vai teimar com o mundo até aprender a laçar o vento.
— Tomara que puxe a parte inteligente da família. — Lila cutucou.
— Vai puxar a sua. — ele rebateu na hora. — E a covardia do pai quando você morde o lábio desse jeito. — Ele encostou a testa na dela. — Princesa… eu te amo.
Ela respirou fundo, como se a frase tivesse peso, e sorriu. Não havia pressa ali, ainda assim, as palavras encontraram caminho:
— Eu também te amo. — disse, simples, e foi como abrir as janelas para a luz entrar mais.

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