Ivone estava inteira encharcada. Ela tinha ficado só alguns segundos parada na porta e, aos pés dela, já se formava uma pequena poça de água.
Ivone entrou no quarto. O cômodo, do tamanho de dois quartos do condomínio Vida Doce juntos, parecia exageradamente amplo.
Bem no centro havia uma cama enorme, coberta com lençóis e edredom em tons de azul-escuro e preto, uma cor profunda e silenciosa como o mar.
Aquilo fez Ivone lembrar, de imediato, de tudo o que tinha acabado de acontecer lá fora, em alto-mar.
Ivone apertou os lábios. A boca, ainda inchada e avermelhada pelos beijos dele, doeu tanto que ela precisou puxar o ar. O ponto onde ele a havia mordido latejava, misturando dormência e dor.
Nesse momento, passos soaram na direção da escada. O ritmo era firme, controlado, sem pressa. Fabiano subiu, igualmente encharcado, e ergueu os olhos para a silhueta delicada parada ali na porta.
Ivone ficou de pé, imóvel, sem saber ao certo no que estava pensando.
A imagem que rodava na cabeça de Fabiano se sobrepôs à cena diante dele. O olhar dele se estreitou, escurecendo ainda mais, e ele acelerou o passo sem nem perceber.
Quando Ivone escutou os passos se aproximando, lembrou do que tinha acontecido no mar, e a raiva subiu de uma vez. Ela girou nos calcanhares, sem olhar para trás, entrou rápido no banheiro e trancou a porta.
Ela tirou a roupa molhada do corpo, ligou o chuveiro, e a água morna começou a escorrer pela pele.
Depois de um tempo, uma sombra alta surgiu do lado de fora do vidro fosco. Ele ficou parado diante da porta:
— Abre a porta.
— Eu estou tomando banho. — A voz sem emoção de Ivone se misturou ao som constante da água.
Fabiano ficou ali fora em silêncio, até o som do chuveiro cessar. Em seguida, ele ouviu a mulher resmungar alguma coisa baixinho.
A voz grave dele veio como um aviso:
— Não tem roupão aí dentro. Abre a porta, eu levo para você.
Lá dentro, nada se mexeu.

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