Anneliese ergueu a blusa e mostrou o abdômen.
A pele, antes clara, estava avermelhada e queimada. Duas cicatrizes grossas cortavam sua parte inferior como fendas profundas em papel. O calor do derramamento de antes deixou a pele ao redor ainda mais vermelha, fazendo as marcas parecerem mais nítidas, mais cruéis.
Tinham se passado quatro anos, mas ainda pareciam recentes. Tão profundo foi o ferimento.
Ela quase perdeu o útero. Se não tivesse rastejado para fora daquele beco ensanguentada e semiconsciente, teria perdido a vida também.
Anneliese não desviou o olhar quando se virou para encarar a chamada família. Deixou que vissem tudo.
A sala ficou muda. Um silêncio tão pesado que sufocava.
“O que foi?” Sua voz soou baixa e fria. “As queimaduras são reais. Ainda estou em tratamento, me preparando pra uma gravidez. O médico disse que não posso pular refeições. Era pedir demais um prato de sopa?”
Ela observou os rostos deles.
A mandíbula de Timothy travou. Melanie levou a mão à boca. Nenhum dos dois a olhou nos olhos. A culpa escapava pelas frestas das máscaras.
Perseus lançou um olhar rápido e logo desviou, engolindo em seco.
Eles não estavam chocados por se importarem. Aquele silêncio era medo.
Foi então que Anneliese finalmente entendeu.
Não eram apenas Christopher e Zacharias que sabiam o que Selina fez com ela. Todos sabiam. Seus pais. Seus irmãos. Cada um deles.
Todos tinham feito parte.
“O que está fazendo? Abaixa isso!” Zacharias correu até ela e puxou a blusa de volta.
Ele não queria que ninguém visse. Nem as cicatrizes. Nem a verdade. Nem os danos que jamais sumiriam. Aquelas marcas não eram apenas feridas, eram lembranças. De um passado que ele se recusava a encarar.
Ele a cobriu rápido demais, tão rápido que nem percebeu o tecido grudar na queimadura.
A dor atravessou o corpo de Anneliese. Ela fez uma careta e afastou a mão dele com um tapa. “Não encosta em mim.”
Zacharias agarrou seu pulso. “Anda, você precisa de água fria.”
Nesse instante, a TV se acendeu. As caixas de som soltaram uma voz suave e animada.
“Oi, mamãe! Oi, papai! Oi, meus irmãos supergatos! Boa noite! Ah, a Anne e o Zach também estão aí? Sentiram minha falta?”
O rosto impecável de Selina surgiu na tela, com bochechas coradas e olhos brilhantes.
Ela usava um moletom branco com orelhas de coelho e estava sentada diante de uma janela alta banhada de sol. Ao lado, uma bandeja de café da manhã perfeita.
Sorria como se fosse o próprio sol. Os olhos reluziam com travessura. As sobrancelhas arqueadas davam aquele ar de ‘sou fofa, mas não se atreva a me irritar’.
Selina. A dourada. A princesa.
Ela acenou para a câmera como se nada tivesse acontecido.
A tensão na mesa se desfez. Ninguém olhou mais para Anneliese. Não enquanto Selina sorria na tela.
Todos os olhares se voltaram para a televisão.
“Bom dia, querida.”
“Dormiu bem?”
“Isso é tudo o que vai comer? Não se descuide, amor.”
“Vi a previsão do tempo. Vai esfriar aí. Se agasalha, viu?”
Até Zacharias soltou o pulso de Anneliese.
O olhar dele ficou fixo na tela, atento e sereno.
Anneliese nunca o viu olhar pra alguém daquela forma.
Ela ficou parada. E se sentiu uma id*ota.
Tinha prometido a si mesma que não se importava mais. Que aquelas pessoas não valiam nada.
Mas agora, vendo todos os que amava virarem as costas de novo, foi como se o peito se abrisse ao meio.
As cicatrizes latejavam. O corpo pulsava de raiva. As mãos se fecharam até as unhas rasgarem a pele.
Ela queria quebrar aquela tela em mil pedaços.
Encarou o sorriso falso de Selina com olhos em brasa.
“Anne? Por que está aí parada?” Selina olhou para ela, depois para Zacharias. “Zach, fez ela se irritar de novo? É melhor tratar minha irmã direito. Se não, pego um voo e te coloco na linha!”
Ela ergueu o punho num gesto brincalhão, toda fofa e atrevida.
Zacharias riu e passou o braço pelos ombros de Anneliese. “Claro que não. Estamos ótimos. Já tentando ter um bebê, né, amor?”
Ele olhou pra ela com expressão calorosa.
Anneliese ergueu o queixo e sorriu. Enlaçou o braço no dele e respondeu com um tom doce e luminoso.
“É isso aí. Da próxima vez que você voltar, nosso bebê vai te chamar de tia Selina.”
Zacharias enrijeceu por um instante.
Na tela, o sorriso de Selina congelou. O brilho nos olhos se apagou. Ela lançou um olhar rápido a Zacharias, o rosto perdendo a perfeição.
Anneliese abaixou o olhar e esboçou um sorriso enviesado.
Mas já não importava. Ela mordeu o lábio, os olhos marejados, e respirou fundo como quem tenta conter o choro.
“Eu preparei algo, sim. Vou dar uma casa pra mamãe. Foi por isso que vim hoje. Preciso do documento de identidade. Vou transferir a escritura pra ela. É surpresa. Pode pegar pra mim?”
O peito dela apertou. O coração acelerou. Era arriscado.
Mas ela usou a máscara da filha tola por tanto tempo que Christopher nem desconfiou. Ele sorriu, orgulhoso.
“Assim é que se fala. Vem, eu pego pra você.”
…
Dois minutos depois, o documento estava guardado na bolsa.
Aquilo já bastava. Não queria ficar ali mais um segundo. Virou-se e desceu as escadas apressada, ignorando a voz de Christopher chamando atrás.
Os passos ecoaram pela escada. Perseus apareceu correndo da sala de jantar ao ouvir o barulho. Agarrou o braço dela.
“Tá todo mundo te esperando pra jantar. Vai pra onde, hein?”
“Jantar?” Anneliese sorriu, o tom afiado. “Claro. Vamos jantar.”
Ela se virou e caminhou em direção à sala de jantar. Perseus a seguiu, achando que ela tinha se acalmado.
Mas assim que chegou à mesa comprida, ela agarrou a toalha e puxou com força.
Os pratos voaram pelo ar.
As tigelas viraram e se espatifaram no chão. A comida se espalhou pelo piso. O vidro estalou sob os pés.
Melanie gritou. Timothy se levantou, furioso.
Anneliese não se moveu. Olhou a bagunça e disse: “Me trouxeram pra jantar e não tem um prato que eu goste. Se eu for ficar com fome, então vamos todos ficar.”
Ela se virou e saiu.
Podiam proteger Selina o quanto quisessem. Escolher o lado que quisessem. Ela tinha acabado de desistir de fingir que pertencia àquilo.
“O que deu nela agora?” A voz de Melanie tremia quando olhou para Christopher.
Ele ergueu as mãos. “Sei lá. Ela surta por qualquer coisa. É isso que acontece quando mimam demais.”
“Isso passou dos limites”, gritou Timothy, o rosto pálido de raiva.
Zacharias ficou de lado, a testa franzida. “Ela realmente se queimou antes. Deve estar com dor ainda. Sinto muito. Trago ela outro dia pra pedir desculpas.”
E saiu apressado pela porta.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Construí seu império e vi tudo queimar quando ele me traiu