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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 338

Felipe

A garagem do escritório tinha aquele cheiro familiar de cimento úmido e motor frio que eu nunca havia dado atenção antes. Hoje dei. Porque era exatamente o tipo de detalhe em que a mente se fixa quando os olhos reconhecem algo que não deveriam ter que enfrentar de manhã cedo.

Ela estava lá.

De pé ao lado de uma das colunas de concreto, de braços cruzados sobre o corpo como se tentasse se sustentar sozinha, com olhos que já haviam chorado antes de sair de casa. Deixei o carro rolar mais devagar do que o necessário até a vaga, como se a velocidade reduzida pudesse adiar o inevitável. Não podia.

Como eu cheguei nesse ponto?

A pergunta não era retórica. Era genuína, irritada, e não tinha resposta que me satisfizesse. Desliguei o motor e fiquei por dois segundos com as mãos ainda no volante, olhando para frente, para a parede bruta de concreto. Bufei pelo nariz.

Desci do carro.

Não olhei para ela. Caminhei direto em direção ao elevador com mochila no ombro e a mente já tentando se adiantar para o dia que me esperava, reunião às nove, três contratos para revisar, uma audiência na parte da tarde. Tinha trabalho real para fazer. Não tinha tempo para aquilo.

"Doutor..." A voz dela veio pelas costas, hesitante mas urgente. "Doutor Felipe."

Não parei.

"O que eu fiz?" Os passos dela aceleraram até me alcançar. "Por que me demitiu? Eu... eu achei que estava tudo certo, que estávamos nos dando bem, e... "

"Esse foi exatamente o seu erro." Disse isso sem virar o rosto, sem suavizar o tom. "Achar que estávamos nos dando bem."

O silêncio durou apenas um segundo.

"Você ultrapassou limites que eu nunca deixei ultrapassar." Parei diante da porta do elevador e pressionei o botão com mais força do que precisava. "E por fim, fez aquela cena com o seu padrinho. Não pude mais tolerar. Sinto muito, Liana. Se precisar de uma carta de recomendação, eu faço."

O gemido de frustração que veio dela foi quase infantil.

"Não quero trabalhar em outro lugar. Só ali. Só com o senhor." A voz endureceu ligeiramente, como se a dor tivesse virado teimosia. "O senhor não pode simplesmente..."

"Posso." A porta do elevador se abriu com um ding discreto. "E a sua trajetória naquele escritório se encerrou."

Dei um passo em direção à cabine quando senti os dedos dela no meu braço.

"Por favor." Era um sussurro agora, quebrado, desesperado. "O senhor entendeu tudo errado. Meu padrinho só perguntou se eu conhecia algum advogado capacitado para aquela vaga, e eu te indiquei. Só isso. Não havia nada além disso."

Desci o olhar lentamente até os dedos dela no meu braço.

Ela soltou.

339. [Segunda Fase] - Inconveniente 1

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