Inês Jardim estava no meio da multidão, ao erguer o olhar, ainda via apenas o perfil do rosto de Rodrigo Simões.
O celular dela estava colado ao ouvido de Rodrigo. O homem informou a localização exata, encerrou a chamada e devolveu o aparelho a ela.
— Elas chegam em breve.
Inês olhou para o celular à sua frente, como se fosse uma batata quente.
— Não quer? — Rodrigo fez menção de recolher o aparelho. — Fica para mim, então. Eu te compro um novo...
Antes que ele terminasse de falar, Inês estendeu a mão rapidamente. No entanto, Rodrigo já havia recuado o celular para a própria palma, fazendo com que a mão dela pousasse novamente sobre a dele.
Não era como se nunca tivessem dado as mãos.
Naquela vez em que dançaram no coquetel, ela e Rodrigo chegaram a ficar abraçados, e na Mansão Serra Sul 9, ele até havia segurado sua cintura... Mas, por algum motivo, justo hoje, aquele leve toque foi o suficiente para lhe causar um formigamento e acelerar um pouco seu coração.
Talvez porque as pessoas ao redor fossem todas estranhas.
E, naquele instante, parecia que existiam apenas os dois.
Inês apertou os lábios, virou-se e caminhou em silêncio em direção à margem do rio. Encontrou um canto com menos pessoas, de onde a vista não era das melhores, e ficou parada em silêncio, observando o brilho da orla e as luzes que se moviam sobre as águas.
Ela pegou o celular, tirou uma foto e postou em suas redes sociais.
Morava em Cidade Alvorecer há mais de dez anos, mas era a primeira vez que parava ali. A primeira vez que, daquele ângulo, contemplava os marcos arquitetônicos, o trânsito intenso e as luzes deslumbrantes da cidade.
Passara por ali inúmeras vezes, mas sempre com pressa. Ou estava correndo para um trabalho de meio período, ou apressada para voltar à universidade, ler artigos e fazer experimentos.
Depois de concluir o doutorado, ficou ainda mais ocupada. Dividida entre a carreira e a família, nunca mais teve a chance de simplesmente relaxar em algum lugar, sem nenhum propósito, apenas para esvaziar a mente.
Havia perdido a si mesma.
O vento noturno do rio era frio, mas Inês parecia não sentir, observando a paisagem à sua frente em silêncio.
De repente, sentiu um peso sobre os ombros.
Um sobretudo preto e grosso a envolvia.
Rodrigo parou ao seu lado, contemplando as mesmas coisas das quais ele já estava farto de ver, mas que, com Inês ali, transformavam o que era monótono em algo novo e fascinante.

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