Mesmo antes do Dia de Finados, a chuva já havia começado a cair.
O voo não sofreu atrasos.
Com a cabeça ligeiramente inclinada, Inês assistia às gotas d'água escorrendo pela janela, a mente vagando longe, embora não soubesse ao certo no que refletia.
Estaria ela pensando no homem que lhe transmitira tamanha afinidade durante o primeiro encontro?
Ou seria no pai que escolheria a sua família, a esposa e o filho, mas não conseguiu escolher firmemente a própria filha?
Ou, possivelmente, refletisse sobre o homem responsável, ciente de seus deveres para com sua família e com a honra do próprio nome, que acabou tendo os olhos vendados e a boca tapada justamente por aqueles que ele mais protegia, recebendo apunhaladas nas costas?
Eram todas essas as versões.
Ele era não só Robson Siqueira, mas também o seu pai biológico.
Ao notar a fisionomia dispersa e atormentada por pensamentos de Inês, mas sabendo que a aeronave mal havia decolado e os cintos não podiam ser desatados, Rodrigo pediu apenas que a comissária trouxesse água quente.
Quando o copo lhe foi entregue, Inês despertou de seu transe. Ciente do olhar observador a acompanhando, voltou-se para a feição zelosa de Rodrigo e esboçou um pequeno sorriso. Depois, tomou pequenos goles de água.
Mais à frente, a poltrona de Alice Simões já fora reclinada, acomodando-a confortavelmente para dormir.
Nenhum deles fora capaz de contrariar os apelos insistentes de Alice, levando-a consigo para a Cidade Balma.
Uma vez pousados, entraram em um carro que seguiu diretamente para a vasta cobertura onde Inês residia antes.
Alice ressaltou que, por estarem todos por ali, era inviável não visitar os avós maternos. Portanto, instruiu o motorista a levá-la até lá, avisando também aos seus pais da chegada deles na cidade.
Do outro lado da janela, a chuva ainda castigava as ruas.
Rodrigo enlaçou Inês com ternura. Ali, de pé em frente ao vidro, ficaram imersos num completo silêncio.
E a chuva caía cada vez mais forte.
Uma espessa cortina de água se formava pelas janelas monumentais daquela cobertura, dando-lhes a impressão de observarem uma imensa cachoeira.
— Eu... — Inês iniciou, porém logo hesitou, as palavras congelando no ar.
Evidentemente, a consciência sobre a escolha forçada que ele precisou fazer pesou também.
Mas ainda assim, ele fez a escolha.
No princípio, quando olhara para o Sr. Siqueira pela primeira vez, Inês sentiu afeto. E, mais tarde, quando descobriu que era seu pai de nascença, a frieza tomou conta dela.
Essa frieza é como um muro de ferro inquebrável: protege e bloqueia uma série de sensações — dores, angústias, colapsos —, porém também isola a própria capacidade de sentir essas emoções.
Quando a trama dos eventos ficou clara, a rigidez desse muro começou a se desfazer.
— Lembra do clássico dilema do bonde? — Rodrigo perguntou.
Inês concordou com a cabeça.
O dilema do bonde é um dos mais famosos experimentos mentais na ética.
Um bonde desgovernado vai em direção a cinco pessoas. A alavanca está em suas mãos. Se puxá-la, o bonde muda para outro trilho, mas há uma pessoa nele. Podendo apenas escolher entre puxar ou não, você sacrificaria uma pessoa para salvar cinco? Ou não faria nada, sacrificando cinco para salvar uma?

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Das Cinzas à Glória: A Ascensão da Sra. Jardim
Parece até que mudou o autor do livro. Uma linguagem rebuscada, parecendo até português de Portugal....
A esposa do Robson era Nara Lessa, de repente mudou para Soraia Siqueira....
Estou amando o livro, só gostaria de maiores atualizações....
Cade a atualização dos ultimos 10 capitulos?????...