O Patriarca evitou olhar para Soraia Siqueira:
— Não cabe a você decidir. Fomos contra esse casamento desde o princípio e, quando você abandonou sua própria filha no momento mais crítico para Guilherme Siqueira, Robson preferiu jogar fora o próprio futuro brilhante a se separar de você. Anos depois, sua filha biológica retorna e você, em vez de tentar reparar seus erros, faz de tudo para atacá-la!
Embora soassem como uma defesa a Inês, Inês sabia perfeitamente as intenções ocultas por trás do discurso do Patriarca: se Soraia a tivesse recebido de braços abertos, a situação não teria chegado àquele ponto.
O Patriarca presumivelmente acreditava que, caso Soraia tivesse amenizado o remorso de anos sem mãe, Inês não teria focado tanto no abandono e aceitaria a desculpa da troca de bebês pelo bem dos laços familiares.
Infelizmente, para ele.
Aquela teoria jamais teria funcionado.
Antes de retornar à família Siqueira, Inês já possuía a convicção de que tinha uma mãe — na verdade, havia ganhado duas — portanto, não sentia falta de afeto maternal.
O abandono, isso, ela jamais poderia perdoar ou esquecer.
Diante das críticas do Patriarca, Soraia ficou subitamente sem palavras. Ela desejava gritar que não a havia atacado, mas a voz falhou.
Do fundo do seu coração, ela não entendia por que Inês escolhera retornar quando sua vida já era estável e pacífica. Se não era para extorquir compensações dela, por que reapareceu apenas aos vinte e oito anos de idade?
Ela não voltara de propósito, apenas para repulsá-la?
Lucinda correu e abraçou fortemente a mãe.
Queria, daquela maneira silenciosa, mostrar-lhe que sempre estaria ao seu lado.
Essa era a diferença entre ela e Inês.
Inês olhava de cima e condenava a própria mãe, enquanto ela oferecia-lhe seu apoio inabalável.
Mas o pai deles pediria o divórcio apenas porque o Patriarca exigira?
Quando a expulsou naquele dia, ele dissera que recusar-se a divorciar vinte e oito anos atrás não significava que se recusaria agora. Contudo, ela não observara qualquer iniciativa da parte dele.
Ele era um homem de extremo senso de responsabilidade, jamais consideraria de fato abandonar a própria esposa.
Além disso, com a soma de suas idades chegando a quase cem anos, o divórcio se tornaria alvo de piadas escandalosas para todo lado! Mesmo que precisassem engolir sapos, teriam de aguentar por mais vinte ou trinta anos.
Enquanto a mãe permanecesse ao lado de seu pai, Lucinda teria ainda acesso à sombra proporcionada por aquela árvore na família Siqueira.
E agora, como toda a família Siqueira, ela conhecia o segredo de Inês e o Patriarca garantiria sua segurança.
No momento em que Lucinda a abraçou, Soraia encontrou um ombro caloroso para se encostar, aconchegando-se à filha adotiva que mimara e de quem cuidara por duas décadas. E quando o olhar dela encontrou o de Inês, continuava transbordando ódio.
Observando a afeição íntima entre Soraia e Lucinda em contraste ao ressentimento com Inês, Alice sentiu seu sangue ferver. A mulher não tinha noção de seus erros, nem a menor intenção de se arrepender.
— Não sente o menor remorso em relação a Inês? Parece que Lucinda é a sua verdadeira filha. O teste de DNA estava mesmo correto daquela vez? Ou talvez vocês devessem fazê-lo novamente!
Se Lucinda Siqueira fosse filha biológica de Soraia, isso não sugeriria traição?
Soraia olhou feio para Alice:
— Sílvia Paz criou você como uma...
Antes de conseguir terminar, foi interrompida por uma voz, fria e ameaçadora:
— E quem lhe deu permissão para falar assim dela?
A voz não pertencia a Rodrigo, mas sim a Inês.
O instinto maternal de Soraia aflorou à superfície quando ela puxou Lucinda para um abraço e declarou:
— Ela sofre do coração! Parem de importuná-la!
— Inês era minúscula e frágil ao nascer, por que não se deteve perante a própria filha? — replicou Rodrigo.
A conversa havia voltado à pauta sobre o abandono.
Soraia quebrou e afogou-se em lágrimas, com o rosto encharcado:
— Não quis isso, não foi minha intenção, não vi saída para aquela situação, não vi!
— Como não tinha saída?! — O olhar de Rodrigo incendiou.
Inês aguardou calada, interessada em ouvir o pretexto engenhoso de Soraia.
Gaguejando, Soraia prosseguiu:
— E-eu, eu...
Ela realmente não tinha alternativa.
Ouvira seus anciãos mencionarem a intenção de Robson Siqueira em encontrar uma companheira para formar uma aliança matrimonial, mas até aquele ponto a noiva estava indefinida. Então surgiu a ocasião oportuna, algo parecido com uma bênção dos céus batendo em sua porta.
Ela não poderia ficar sem tentar!
Surpreendentemente, viu Robson em pé sob o abrigo de uma árvore, se escondendo da chuva. Com suas sobrancelhas retas em formato de espada e olhos radiantes, ele era magnificamente atraente, um jovem nobre e digno. O coração dela falhou algumas batidas em excitação.
Com a única caixa de doces em seus bolsos, conseguiu estabelecer as premissas de uma conexão. Ela julgava ser tudo o que lhe seria concedido, mas cruzou seu caminho com ele mais uma vez e, ali, ele adquiriu aquele traje azul em seu nome.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Das Cinzas à Glória: A Ascensão da Sra. Jardim
Pra que um livro tão longo? É muito cansativo. Estou no capítulo 244 só agora ela foi revelada, para mim o livro só teria mais o envolvimento dela com o Rodrigo e acabaria ai, mas não, tem que passar de mil capítulos....
Parece até que mudou o autor do livro. Uma linguagem rebuscada, parecendo até português de Portugal....
A esposa do Robson era Nara Lessa, de repente mudou para Soraia Siqueira....
Estou amando o livro, só gostaria de maiores atualizações....
Cade a atualização dos ultimos 10 capitulos?????...