O homem que passou quase um mês evitando ela e a filha decidiu voltar para casa depois do expediente. O fato de ter sido provocado por ela no fim de semana a não procurar Bianca já era estranho o suficiente.
E agora ele se oferecia para vir buscá-la e irem juntos pegar a criança?
Olívia clicou várias vezes na foto de Ramires para confirmar que era ele mesmo e não uma conta falsa. Ela tinha certeza de que quem mandou aquela mensagem não estava com a cabeça no lugar.
Ela preferia acreditar que Ramires diria que precisava do carro e que Gildo não poderia buscá-las a acreditar que Ramires viria pessoalmente.
Mas, como ainda não era hora de um rompimento total, Olívia não quis ser dura demais e perguntou com aparente surpresa e alegria: [Sério?]
[Ramires, você não está ocupado hoje? Não vai fazer hora extra?]
Ramires respondeu quase imediatamente: [Sim, já terminei o trabalho.]
Olívia só acreditaria naquilo se fosse louca.
Deixando de lado a questão da VGV que ele ainda precisava resolver, considerando a atitude recente de Ramires, que mal queria olhar para elas, ele sair mais cedo do trabalho era um absurdo.
Com certeza havia algo por trás disso!
Enquanto Olívia calculava mentalmente, as mensagens que ela enviava para Ramires eram cheias de romance, com cada palavra exalando alegria e felicidade.
[Que ótimo!]
[Faz tanto tempo que não vamos juntos buscar nossa filha, estou muito feliz!]
[Stella também ficará muito feliz em te ver!]
Depois de enviar aqueles elogios exagerados e sem emoção com uma expressão neutra, Olívia guardou o celular, pegou o casaco, o cachecol e saiu do quarto.
Isabel a viu descendo as escadas segurando o celular e prestes a sair. Depois de vê-la olhar a hora pela milésima vez, não conseguiu se segurar e perguntou à filha:
— Você não vai buscar a Stella?
— Ramires disse que virá me buscar para irmos juntos pegar a Stella — respondeu Olívia.
— O quê?
Isabel arregalou os olhos de espanto, como se algo impossível tivesse acontecido:
— Ele disse isso?
— Sim, ele está a caminho.
Olívia zombou:
— Mãe, você também acha estranho, não é?
Isabel assentiu. A intuição lhe deu um mau pressentimento, e ela avisou:
— Será que aconteceu alguma coisa hoje? Ele precisa que você intervenha para ajudar?
Olívia não negou:
— Talvez.
— Então tome cuidado, não deixe que ele te use.
— Tudo bem, obrigada, mãe.
Enquanto mãe e filha conversavam, Ramires mandou uma mensagem: [Estou no portão, saia.]
Olívia respondeu com um emoji de OK e se levantou:
— Mãe, vou indo.
— Cuidado no caminho.
Olívia vestiu o casaco, colocou o cachecol e caminhou em direção à porta. Ao sair pelo portão e chegar a um ponto onde Ramires pudesse vê-la, ela começou a trotar, fingindo estar com pressa.
Ela abriu a porta do passageiro, entrou no carro, virou-se para Ramires com um grande sorriso e disse com doçura:
— Querido! Desculpe a demora!
Ramires ficou perplexo ao ser chamado de querido por ela.
Ele e Olívia se conheciam desde a infância, casaram-se por amor e estavam acostumados a se chamar pelo nome. Apenas em momentos especiais ou brincadeiras eles usavam os termos querido e querida.
Mas fazia muito tempo que não se chamavam assim.
Ramires não conseguia se lembrar de quando havia sido a última vez que Olívia o chamara de querido de forma tão grudenta.
Por outro lado, Bianca costumava chamá-lo assim quando o clima esquentava.
Olívia não esperava que ele respondesse. Depois de falar, ela abaixou a cabeça para colocar o cinto de segurança. Quando levantou o olhar, viu Ramires a encarando atordoado.

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