"Cadê seu namorado?" perguntei.
"Foi às compras. Ouviu falar da famosa Passage du Désir e está louco pra dar uma olhada nos produtos deles." Yvaine deslizou para a cadeira, lançando um olhar lento pelo restaurante. "Bom gosto o seu. Deve ser um pedido enorme que você vai me fazer, já que está gastando num lugar de três estrelas."
"Só o melhor pra minha melhor amiga." Não falei o quanto foi um alívio vê-la. Ela não precisava dizer uma palavra; só tê-la aqui já me ancorava nesta cidade estrangeira. Não era exatamente um conselho que eu precisava, mas sim a companhia dela.
Ela parecia estar de bom humor, as bochechas brilhando de tanto esquiar. Ainda assim, esperei até a sobremesa, quando ela estava agradavelmente cheia e sob o efeito do açúcar, para abordar o assunto.
"Seu idiota," ela disse. O tom dela era suave e contente, como um gato com a barriga cheia de creme. Nada parecido com o julgamento estridente que havia me lançado por telefone alguns dias atrás.
Abri as mãos. "Tenho certeza de que você tem uma razão para dizer isso."
"Você falou com o Ashton?"
"Não."
"Por que não? Ainda está evitando ele?"
"Não. Eu só..." Não conseguia encará-lo. "Ele não atende o telefone."
Yvaine revirou os olhos. "Isso é uma competição para ver quem consegue ignorar o outro por mais tempo? Patético."
Tracei o caule do meu copo de vinho com o dedo. "Esquece ele. Quero sua opinião."
"Eu diria pra aceitar."
"Você quer dizer que eu devo comprar a Valmont & Cie?"
"Obviamente. Até eu já ouvi falar deles. Nome forte na joalheria, né? Seria um crime deixá-los fechar só porque o chefe é um idiota."
"Se eu comprar a Valmont, eu teria que ficar em Paris."
"E daí? Paris é linda, se você ignorar as drogas, os batedores de carteira e o cheiro dos esgotos."
"Então eu ficaria longe de Skyline. Longe de você."
"Não seja boba. Eu vou te visitar a cada duas semanas. Adoro o Domaine de Primard, e o Cade está sempre disposto a viajar."
"Eu ficaria longe do Ashton."
"Ha!" Yvaine apontou sua colher de sobremesa para mim. "Finalmente. Então é carreira ou homem, né?"
"O que você escolheria?"
"Carreira, sem pensar duas vezes. Mas essa sou eu. Eu amo minhas confeitarias, e o Cade não é o Ashton."
Eu entendi o que ela queria dizer. Cade era um namorado, um entre tantos antes dele e, conhecendo a Yvaine, ainda viriam outros depois.
Ashton era diferente. Ele era meu noivo, o homem com quem eu deveria passar o resto da minha vida.
"Eu ficaria triste por alguns dias se o Cade e eu terminássemos, mas depois superaria. Você pode dizer o mesmo sobre o Ashton?" Os olhos da Yvaine brilhavam com um desafio.
Eu desviei o olhar. Ela sempre sabia onde apertar.
"Você não ama ele, ama?"
Essa doeu mais.
Yvaine suspirou. "Talvez eu estivesse errada. Talvez você devesse ter ficado com o Rhys. Vocês são farinha do mesmo saco."
Depois de uma praga abafada de Yvaine, ela voltou marchando, arrastando Cade com ela. "Claro que você deve contar pra ela."
"Contar o quê?"
Cade hesitou.
Yvaine cutucou suas costelas. "Vai, fala."
"Cade?" eu o incentivei.
"Ashton estava jantando em um restaurante aqui perto," ele disse, os olhos em qualquer lugar menos em mim.
"E...?"
"Ele não estava sozinho. Havia um casal de meia-idade, uma mulher... e um homem que pode ser parte do grupo, mas eu não tenho certeza."
"A mulher... loira, olhos azuis, deslumbrante, com o corpo de uma deusa romana?"
Ele assentiu. "O casal saiu primeiro. Ashton e a mulher saíram juntos enquanto eu passava por ali."
"E...?"
"Então, o cara saiu atrás deles. Parecia furioso, talvez bêbado. Ele sacudiu o punho. Não consegui ouvir o que disseram. A mulher falou alguma coisa, ele ficou mais bravo. Então ela..." Cade hesitou.
"Fala", Yvaine disse. "Ela precisa saber."
Cade finalmente encontrou meus olhos. "Ela beijou Ashton."
Yvaine cutucou ainda mais. "Na boca, não na bochecha."

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