Três da tarde, cafeteria.
A tempestade repentina batia nas grandes janelas, com um som abafado.
Havia poucos clientes, cada um ocupado com os seus assuntos.
Carina estava sentada perto da janela. À sua frente havia um homem de terno, com pouco mais de trinta anos e cabelo brilhante, com aquela aparência astuta de quem trabalha para os outros.
O homem empurrou um contrato espesso, com mais de dez páginas.
— Senhorita Nunes, dê uma olhada. Se não houver problemas, assine.
Carina não se moveu.
O homem esperou dez segundos, olhou para ela, depois abaixou a cabeça para olhar o relógio e disse com paciência: — A intenção do Sr. Alencar é que este apartamento seja transferido para o seu nome após a assinatura. Além disso, terá cem mil de custo de vida por mês, e as mensalidades da faculdade estarão pagas. O Sr. Alencar já conversou com os seus pais adotivos.
Ele empurrou a caneta um pouco mais para a frente.
Só então Carina estendeu a mão e pegou a caneta-tinteiro.
Os cantos da boca do homem estavam prestes a se erguer—
Ela soltou-a.
— Não vou assinar.
A voz não era alta, mas era muito clara.
O homem hesitou, achando que tinha ouvido mal: — O que você disse?
— Eu disse, não vou assinar.
O sorriso no rosto do homem desapareceu.
Ele olhou para Carina por dois segundos, tentando encontrar algo naquele rosto.
Carina não olhou para ele. Virou a cabeça para olhar a árvore lá fora, que balançava com o vento. A sua expressão era neutra, como se o assunto não tivesse nada a ver com ela.
O homem respirou fundo e baixou a voz: — Senhorita Nunes, você pode não entender bem a situação. Muitas pessoas implorariam pelas condições que o Sr. Alencar ofereceu. Você é uma universitária, sabe muito bem qual é a situação da sua família, os seus pais adotivos já—
— Eu sei. — Carina o interrompeu.
— Você sabe?
— Eles pegaram o dinheiro dele. — O tom de Carina era uniforme ao dizer isso, como se estivesse comentando que choveu hoje. — Por isso mandaram que eu viesse assinar o contrato, mas eu não vou assinar.
O rosto do homem fechou completamente.
Ele empurrou a cadeira para trás e levantou-se. Com o celular na mão, forçou um sorriso: — Vou ao banheiro. Pense melhor.
Virou-se e saiu.
Carina sabia o que ele ia fazer.
Ligar, para Leonardo.
Pedir instruções, relatar, e talvez até levar uma bronca.
Ela baixou os olhos e olhou para o contrato na mesa.
Na capa havia algumas palavras grandes douradas impressas, sobre algum acordo ou cláusulas, ela não leu com atenção.
Mas ela sabia o que estava escrito lá dentro—
Ela se vendia.
Vendia-se por três anos, ou cinco anos, ou até Leonardo se cansar.
Os dedos dela tocaram a tampa da caneta, que estava gelada.
Foi nesse momento que algo explodiu de repente na sua cabeça.
Foi como se alguém tivesse aberto a sua cabeça com um martelo e derramado um livro inteiro lá dentro.
Textos densos surgiram, e ela viu a sua vida inteira.
Não, não era a sua vida.
Era a vida da Carina no livro original.
[No quarto escuro, havia cheiro de sangue. Sem janelas, o ar estava abafado e fedia. Havia uma pessoa encolhida no canto, sem dar para ver se estava viva ou morta.
Leonardo estava à porta, com sangue no roupão.
O seu dedo estava cortado, e a empregada da vila limpava com um cotonete.

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