Já que havia conseguido sentar-se àquela mesa, continuar se fazendo de burro e depender apenas de chutes e sorte não seria suficiente para fazer o homem por trás das cortinas realmente notá-lo, muito menos para alcançar os segredos mais profundos.
Ele precisava mostrar algo real. Uma habilidade que fizesse os outros olharem para ele com respeito, vendo nele algum valor ou ameaça, mas sem revelar seu disfarce tão rápido a ponto de gerar alerta excessivo.
Jocelino baixou o olhar, escondendo o brilho frio e rápido que cruzou seus olhos.
O jogo de hoje não poderia mais depender da sorte. Repetir o mesmo truque pela segunda vez tiraria toda a graça.
Era hora de fazer o papel de Narciso avançar um pouco. Ele precisava ganhar, mas de forma justificada. Uma vitória que deixasse os olhos ocultos surpresos, sem despertar neles o instinto de matá-lo na hora, e sim gerando um tipo peculiar de interesse.
Isso faria mais sentido e aumentaria o valor dele aos olhos dos outros, seja para ser aproveitado, seja para ser mantido por perto.
Jocelino tomou sua decisão.
As fichas fizeram um leve barulho metálico ao se chocarem entre os dedos dele.
Mais à frente, a partida começou.
O crupiê começou a embaralhar as cartas com maestria. O baralho novo fazia um som rítmico e nítido em suas mãos, como o rufar suave de tambores de guerra.
Ao redor da mesa de feltro verde-escuro, já estavam sentados uns sete ou oito convidados, incluindo o Sr. Correia, Fabíola e outros homens e mulheres que claramente eram muito ricos.
Narciso se levantou e ocupou o seu lugar na mesa, ficando exatamente na diagonal de Fabíola.
Naquela noite, jogariam Poker. O cacife inicial era de cinquenta mil, com apostas e aumentos ilimitados.
Nas primeiras rodadas, as mãos de Narciso pareciam as de um novato na hora de apostar.
Ele sempre hesitava alguns segundos para pagar as apostas, franzindo a testa enquanto olhava para as cartas e murmurava baixinho os pontos.
Ele também apostava baixo, empurrando fichas de dois mil e quinhentos a cinco mil por vez. Quando ganhava, abria um sorriso enorme, como se tivesse encontrado um tesouro.
A pequena pilha de fichas na frente de Narciso diminuiu ainda mais.
No entanto, a partir da quinta rodada, a situação começou a mudar discretamente.
Narciso parecia desesperado com as perdas, ou talvez sua paciência tivesse acabado com aquele vai-e-vem de apostas baixas. Com a testa franzida, ele encarava suas cartas, e a respiração ficou mais pesada.
No momento em que o crupiê sinalizou que era hora de apostar, ele, como se tivesse tomado uma decisão repentina, empurrou com força uma pilha enorme de fichas para o centro da mesa.
— Eu pago! — A voz dele saiu mais alta do que antes, com um ar de quem não tinha nada a perder. — E aumento... duzentos e cinquenta mil!
O choque das fichas ecoou pela mesa com um estalo nítido.
Todos os jogadores congelaram e viraram os rostos em direção a ele, em uníssono.
O nível das apostas daquela rodada tinha acabado de pular para um patamar completamente diferente.

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