Ele tinha um par de reis acompanhado de um ás e uma dama, uma mão extremamente forte. Com a sorte que o outro aparentava ter, já seria muito se conseguisse um par simples.
— Excelente! Muita coragem!
O Sr. Correia deu uma gargalhada e, sem mais hesitações, empurrou todas as fichas que lhe restavam para o centro da mesa.
— O Sr. Porto é direto! Então vou acompanhá-lo até o fim! Vamos virar as cartas!
Transbordando confiança e quase impaciente, ele bateu suas duas cartas viradas para baixo na mesa com um estalo seco.
Um rei e um ás. Somados a um rei entre as cartas comunitárias, ele havia formado uma trinca de reis com um ás, uma mão espetacular.
— Trinca de reis! Sr. Porto, foi um prazer!
O Sr. Correia estava radiante, exibindo um sorriso de vencedor que não fazia questão de esconder, e já esticava as mãos, ansioso para puxar a montanha de fichas acumulada no centro da mesa.
Na cabeça dele, aquelas fichas já eram suas.
No entanto, antes mesmo que seus dedos tocassem a borda das fichas, Narciso interveio e bloqueou seu movimento.
— Ei, Sr. Correia, qual é a pressa?
O Sr. Correia paralisou o movimento e ergueu o olhar.
Viu que o rosto de Narciso não exibia o colapso que ele esperava. Pelo contrário, aquela expressão antes tão tensa simplesmente desapareceu de repente, a ponto de ele dar uma alongada quase imperceptível nos ombros e no pescoço.
Ele olhou para o Sr. Correia, e os cantos de seus lábios até se curvaram ligeiramente para cima.
— Eu ainda não virei as minhas cartas.
Narciso falou de forma arrastada, com uma voz que não era alta, mas que ecoou claramente pela mesa, que havia mergulhado num silêncio repentino.
A mão estendida do Sr. Correia ficou suspensa no ar. A arrogância em seu rosto congelou num instante, transformando-se em choque e numa pontada de irritação por se sentir ofendido.
— Você...!
Antes que ele pudesse terminar, sob os olhares atônitos e subitamente focados de todos, Narciso, sem pressa alguma, usou dois dedos para pressionar levemente as duas cartas que mantivera viradas para baixo à sua frente.
Todos, quase em sincronia, observaram Narciso com a expectativa da próxima jogada.
Porém, sem que ninguém soubesse se Narciso estava se exibindo de propósito, seus movimentos continuavam irritantemente lentos.
O coração do Sr. Correia já estava na boca. Ver a lentidão do adversário fez com que uma raiva inexplicável, misturada a uma forte inquietação, subisse abruptamente à sua cabeça.
Ele havia apostado tudo, todas as suas fichas, na certeza de que iria ganhar. Ficar suspenso daquele jeito por causa da atitude do outro já o deixava ansioso, mas aquela postura de falso mistério acabou com sua paciência, fazendo-o apressar o adversário com voz áspera.
— Ei! Sr. Porto, por que está enrolando tanto?
— Se tem cartas, mostre logo! Um dez e um valete, que milagre isso pode fazer? Pare de fazer suspense!
— Com tanto mistério, vai me dizer que tem um straight flush?
Narciso, ao ouvir isso, levantou o olhar e o encarou de relance. Seu olhar era calmo e indecifrável, mas causou um calafrio inexplicável no coração do Sr. Correia.
Narciso soltou uma risada baixa e, com os olhos sorridentes, voltou-se para o Sr. Correia.

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