Ele lembrava perfeitamente que, da última vez no salão do andar de baixo, aquele Narciso era apenas um novato ignorante que apostava sem critério e dependia da sorte cega. Como é que, em poucos dias, ele parecia ter se transformado em outra pessoa?
Um outro homem de meia-idade, usando óculos de armação dourada e com ares de executivo, ajeitou os óculos e finalmente não aguentou ficar calado, num tom que mesclava sondagem e curiosidade.
— Sr. Porto, parece que a sorte está sorrindo muito para o senhor hoje.
— Lembro-me de que, da última vez, lá embaixo, o Sr. Porto parecia... não conhecer bem as regras. Como é que agora o senhor parece outra pessoa, com uma habilidade que melhorou da noite para o dia?
A pergunta ecoou o pensamento de muitos à mesa. Até Fabíola soltou a taça e olhou para Narciso com um ar avaliador.
Narciso estava focado em contar animadamente as fichas recém-ganhas. Ao ouvir aquilo, levantou a cabeça, exibiu uma expressão orgulhosa e despreocupada, acenou com a mão e respondeu num tom casual, como se estivesse falando do clima.
— Ah, daquela vez eu tinha acabado de chegar, não tinha pegado o jeito ainda! Quando voltei para o hotel, não tinha nada para fazer, então peguei uns materiais para ler e fiquei pensando um pouco no assunto.
Ele pegou uma carta, girou-a entre os dedos e, num tom de quem teve uma epifania, disse:
— Acabei percebendo que é até bem simples. É só fazer umas contas e observar a expressão das pessoas. Depois de jogar um pouco, a gente pega o jeito.
Ele disse aquilo com uma leveza absurda, como se falasse de aprender a andar de bicicleta. Mas, para aqueles veteranos do jogo sentados à mesa, que conheciam a fundo a complexidade das apostas, aquelas palavras caíram como um trovão.
Fazer umas contas? Observar a expressão das pessoas?
Ele se consagrou, sem sombra de dúvida, como o grande vencedor da noite.
As fichas empilhadas à sua frente eram tão altas que quase bloqueavam sua visão, brilhando de forma tentadora sob a luz dos lustres de cristal.
Ele abriu um sorriso de orelha a orelha e, de forma um tanto desajeitada e cuidadosa, trocou todas aquelas fichas por cheques e dinheiro em espécie, enfiando tudo na carteira de mão que parecia cara, mas contrastava totalmente com o seu estilo.
— Ai, ai, foi um prazer, foi um prazer! Hoje a sorte estava comigo, dei sorte com vocês hoje, senhores!
Narciso falou alto, apertando a bolsa estufada debaixo do braço, como se temesse que alguém a roubasse, e acenou de qualquer jeito para os convidados ao redor da mesa, cujas expressões variavam em cores e pensamentos. Seu rosto estampava uma satisfação inegável, e sua voz soava alguns tons acima do normal.

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