— Então você é a brilhante aluna do Sr. Gomes. Que descortesia a nossa.
O médico de óculos, que havia falado primeiro, forçou um sorriso. O tom parecia educado, mas a cortesia soava superficial.
— Para a dra. Porto ter conquistado o favor do Sr. Gomes sendo tão jovem e ainda vir fazer esse intercâmbio conosco, com certeza deve ter talentos excepcionais.
— Posso saber qual é a sua principal linha de pesquisa, dra. Porto?
— Meu foco é principalmente na reparação neural e na investigação dos mecanismos básicos de algumas neuropatias raras. Ainda estou aprendendo o básico com o meu mentor.
Aeliana respondeu com humildade, assumindo perfeitamente a postura de uma “estudante” em “intercâmbio”.
Faustino Lopes soltou um “ah” arrastado. A voz não era alta, mas ele garantiu que todos ouvissem com clareza:
— Então é uma “aluna brilhante” da área de pesquisa básica.
— Agora faz sentido... já dava para ver que você tem cara de quem nunca precisou lidar com o trabalho pesado.
— Dra. Porto, você acabou de chegar, então não leve a mal o aviso.
— O nosso departamento de neurocirurgia tem um ritmo puxado, com cirurgias longas e estressantes. É melhor já ir se preparando psicologicamente, para não acabar se assustando ou ficando sobrecarregada. Nós não teríamos como assumir essa responsabilidade, muito menos dar explicações ao Sr. Gomes.
— O Sr. Almeida também complica. Se a pessoa veio por indicação, bastava deixá-la quietinha no prédio administrativo, tomando café e lendo relatórios. Era só manter o nome no quadro e pronto.
— Para que insistir em colocá-la aqui na clínica com a gente?
— Além de ocupar espaço, se na hora de agir não souber fazer nada, ainda vamos ter que perder tempo servindo de babá. Se isso atrapalhar o serviço de verdade, quem vai se responsabilizar?
As palavras já soavam bastante ácidas.
A médica de postura firme franziu a testa e puxou discretamente a manga do jaleco do médico mais jovem.
Outro médico, um pouco mais velho e de semblante mais amigável, apressou-se em amenizar a situação.
— Ei, Faustino, não fale assim. Prática clínica e pesquisa básica se complementam, não é?
— Se a dra. Porto está aqui, com certeza temos algo a aprender com ela. Dra. Porto, não ligue para o Faustino. Ele fala sem pensar.



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