Conforme a conversa avançava, o constrangimento inicial naquela sala reservada foi sendo substituído, pouco a pouco, por um clima leve e descontraído.
Frederico era um excelente interlocutor. Não se exibia, não fazia perguntas invasivas nem conduzia a conversa como um interrogatório. Preferia contar histórias engraçadas da época em que estudou fora, casos curiosos do trabalho e opiniões ponderadas, mas interessantes, sobre alguns assuntos sociais.
Aline logo percebeu que, deixando de lado o embaraço de estar num encontro arranjado, conversar com Frederico era, na verdade, muito agradável. Ele era culto, tinha ideias próprias e não carregava aquela arrogância típica de alguns herdeiros ricos.
No começo, ela ainda tentou manter certa reserva. Mas, ao ouvi-lo falar com tanto bom humor e naturalidade, foi relaxando aos poucos.
Aline sempre teve uma personalidade viva e espontânea. Assim que baixou a guarda, começou a falar sem parar.
Ao contar sobre um projeto que enfrentou muitos altos e baixos até ser concluído com sucesso, seus olhos brilhavam e suas mãos se moviam animadas. Quando passou a reclamar de um cliente insuportável da empresa, franziu o nariz e fez caretas exageradas, arrancando de Frederico risadas que ele não conseguiu segurar.
No início, ele apenas a escutava com educação, comentando aqui e ali.
Mas, sem perceber exatamente quando, passou a demorar cada vez mais o olhar em seu rosto.
Sob a luz quente e amarelada, a pele de Aline parecia macia e saudável.
Como estava empolgada, suas bochechas ganharam um tom rosado, parecido com o de um pêssego maduro. Seus grandes olhos amendoados brilhavam intensamente, cheios de vida e esperteza.
Quando sorria, os olhos se curvavam em meias-luas, e dois discretos furinhos apareciam nos cantos da boca, deixando-a ainda mais doce. O vestido rosa-claro daquele dia valorizava seu pescoço fino e os ombros delicados, fazendo-a parecer uma bala macia recém-desenrolada, com um ar leve e adocicado.
Frederico acabou se distraindo ao observá-la.
Assim como Aline, ele tinha vindo sem expectativa alguma e até com certa resistência.
Na sua visão, quem ainda dependia de encontros arranjados hoje em dia ou tinha algum problema que não podia revelar, ou estava sendo tão pressionado pela família que só comparecia para cumprir obrigação.
Tinha ido naquele dia unicamente para agradar os pais. A ideia era jantar com educação e depois cada um seguir seu caminho.
Mas jamais imaginou que a moça sentada à sua frente seria tão diferente do tipo de pessoa que ele havia imaginado encontrar.
Aline, empolgada demais com a própria história, não notou a mudança no olhar dele e continuou descrevendo tudo com riqueza de detalhes.
— E aí o nosso gerente entrou em cena pessoalmente, levando uma proposta que já tinha sido alterada umas dezoito vezes...
O jantar avançou sem que percebessem o tempo passar. Na hora de pagar, Frederico naturalmente assumiu a conta, e Aline não insistiu em dividir. Apenas sorriu e agradeceu, dizendo que a próxima seria por conta dela.
Quando saíram do restaurante, a brisa da noite trouxe frescor ao rosto dos dois, enquanto os letreiros de neon piscavam dos dois lados da rua.
— Ainda é cedo.
Frederico olhou para o relógio, depois para Aline, que estava ao seu lado com os olhos brilhando, e, movido por um impulso difícil de explicar, sugeriu:
— Inauguraram um cinema aqui perto faz pouco tempo. Ouvi dizer que é ótimo. Você gostaria de... ver um filme?

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Despertar Depois dos 1460 dias